São Paulo (SP) - Depois
de quatro anos de vitórias brasileiras consecutivas, a
Prova Ciclística Internacional 9 de Julho volta a ter um
campeão estrangeiro. Desertor
da delegação cubana durante os Jogos Pan-americanos de
2007, Michel Fernandez Garcia venceu a 65ª edição da
prova após bater os rivais em uma emocionante chegada.
Pelo menos 20
atletas chegaram aos metros finais das 20 voltas no
circuito de Interlagos em condições de conquistar o
primeiro lugar. Um dos favoritos ao título, o brasileiro
Bruno Tabanez ficou com a segunda colocação, seguido do
compatriota Jean Coloca. O argentino Emanuel Mendieta
foi o quarto, enquanto Ricardo Ortiz completou o pódio.
O campeão foi
humilde na hora de falar sobre o feito alcançado nesta
quarta-feira. “Fiquei feliz com o resultado. Estava bem
e sabia que poderia conquistar um lugar no pódio, mas
definição no sprint pode dar qualquer. Hoje foi meu
dia”, comentou o atleta, que terminou a prova em
1h58min47seg.
A expectativa de
equilíbrio na 9 de Julho se confirmou e poucas fugas
foram vistas em Interlagos nesta quarta-feira. As
tentativas, entretanto, logo foram anuladas pelo pelotão
de elite até que Garcia contou com o apoio de sua
equipe, São Francisco/Kenda/Nossa Caixa, de Ribeirão
Preto, para subir ao ponto mais alto do pódio.
Assim como os
boxeadores Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, além
do jogador de handebol Rafael Capote, Garcia deixou a
Vila pan-americana antes de competir. Porém, ao
contrário dos atletas do boxe, que foram deportados,
Capote e o ciclista são considerados refugiados pelo
governo brasileiro e possuem quase todos os direitos de
quem nasceu no país, exceto votar e deixar o Brasil sem
avisar as autoridades.
Membro da
equipe de Ribeirão Preto, Garcia nega que tenha deixado
de viver em Cuba por causa da política - segundo o
atleta, os motivos são bem mais românticos, quase um
enredo de novela. “Conheci uma mulher quando vim para o
Campeonato Pan-americano de
ciclismo, em 2006. Voltei para Cuba, mas continuei
falando com ela por e-mail e telefone. Quando voltei ao
país por conta do Pan do Rio, começou o papo de novo e
eu resolvi ficar”, contou o cubano.
A aventura,
entretanto, não teve uma sequência de final de ficção.
“Antes de vir, eu não estava pensando em ficar. Só
cheguei aqui e resolvi permanecer com ela, mas não deu
certo. Você não pode tomar uma decisão como essa só pelo
que uma pessoa fala para você”, destacou o atleta,
dizendo-se arrependido dos seus atos.
“Depois que você
fica, começa a pensar “Vixe, o que eu fiz?”, pois minha
família, minhas amizades e minha vida ficaram lá. É
difícil”, desabafou Garcia, que passou também por um
período desempregado. “Procurei então a Federação
Paulista de Ciclismo em setembro e aí o presidente
conversou com o irmão dele, que toma conta de uma
equipe. Aí, eu fui para lá”, explicou,se referindo ao
dirigente Marcos Mazzaron.
Ainda se adaptando
ao Brasil, o cubano não sabe bem o que vai fazer do
futuro. “Ainda não tenho noção sobre isso. Tem muitas
provas importantes no Brasil e eu pretendo me sair bem
nelas. Estou melhorando a cada dia”, destacou Garcia,
que, com a vitória, somou 40 pontos no ranking da União
Ciclística Internacional (UCI).
Michel, entretanto, já imagina uma forma de rever a
família na ilha caribenha. “Quando você abandona uma
delegação, o governo fecha a sua entrada no país como
uma forma de castigo. Só que, se eu me naturalizar
brasleiro, acho que posso tirar o passaporte daqui e
mascarar a minha entrada”, afirmou o primeiro campeão
cubano da tradicional prova ciclística que marca o
aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932.
Confira o
resultado final masculino da prova 9 de Julho:
1º- Michel Garcia
(CUB), 1h58min47s
2º- Bruno Tabanez (BRA), 1h58min47s
3º- Jean Coloca (BRA), 1h58min47s
4º- Rodrigo Emanuel Mendieta (ARG), 1h58min47s
5º- Ricardo Ortiz (BRA), 1h58min47s