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Coluna do Roberto Brandão

 

 

 

 

 
AS OVELHAS VOADORAS  A LENDA DA NEBLINA 
A ÚLTIMA CORRIDA DO BRASIL ACB x CBA – A CONFUSÃO TROCA LETRAS
AGUA Amarelo 18
CONFIRMAÇÃO DO DNA  DERRAPAGEM CONTROLADA
DÁ UMA SAUDADE DE CASA.... DKW 96 – UM CARRO COM ALMA
ESTREANTES E NOVATOS   É PEROBA NA PISTA, É O NÓ DA MADEIRA...
FABULOSAMENTE FITTIPALDI  GOL EM INTERLAGOS 
INTERLAGOS – O CANTO DO CISNE IMPREVISÍVEL, IMPRESSIONANTE, MÁGICO GILLES
LUIZÃO E O VULCÃO Mil Milhas - Outros tempos
MEA CULPA ORGULHO PAULISTANO 
O DEZ!!! OS ÍDOLOS E O MITO
O TANGO DE 13 DE JANEIRO  O MENINO E O CARRO DE CORRIDA
O Herói O “RABO QUENTE” 
RETROVISOR ESPECIAL 1 PAIXÃO NÃO SE EXPLICA, VIVE-SE (2)
ULTRAPASSAGENS PODEROSAS VENDO COM OLHOS VIRGENS
   

ULTRAPASSAGENS PODEROSAS

             Toda vez que se junta um grupo para falar de corridas de automóveis, o assunto ultrapassagens é logo abordado. E vêm a memória algumas mais atuais, como a de Schumacher sobre Fisichella na China, a de Piquet sobre Senna, na Hungria, algumas do próprio Senna, outras de Mansell, sem falar nas de Gilles Villeneuve.  Porém, pouco se recorda de Émerson Fittipaldi neste assunto.

            Émerson, que a meu ver deveria ter recebido o apelido de “Professor”, é quase sempre lembrado por sua técnica, por saber dosar a tocada e preservar seus carros e por ser um piloto mais cerebral, menos arrojado. Então resolvi recordar o GP da Argentina de 1973, quando a pilotagem de nosso Rato foi qualquer nota!

            Na pole, Regazzoni (BRM), com Émerson (Lótus 72) a seu lado. Na segunda fila, vejam só, Ickx (Ferrari) e Stewart (Tyrrell 005 – modelo do ano anterior). Na terceira, Peterson (Lótus 72) e François Cevert (Tyrrell 006 – modelo novo). O grid teria ainda Beltoise (BRM), Dennis Hulme (Mclaren), Reutemann (Brabham) e Mike Hailwood de  Surtess, completando os 10 primeiros. A corrida contava também com Pace (Surtees), Niki Lauda (BRM), Jarier (March) e Wilsinho Fittipaldi (Brabham) entre outros.

            A largada já preparava a emoção : lado a lado, Regazzoni, Émerson e Cevert, que havia feito uma largada excepcional, dividindo a primeira curva. Regazzoni fica na frente, com Cevert e Fittipaldi a seguir. Após 29 voltas, Cevert ultrapassaria Regazzoni que, logo depois seria ultrapassado por Stewart (que vinha fazendo uma corrida espetacular), Fittipaldi e Peterson. As Tyrrell nas duas primeiras colocações, seguidas por duas Lótus.

            O show de Émerson começaria a 20 voltas do final, quando partiu decidido para cima de Stewart, ultrapassando-o, de maneira incrível, e em perseguição a Cevert, que abrira mais de 12 segundos do companheiro. Em poucas voltas, o talento a técnica e o arrojo de Émerson começam a prevalecer. Com um carro mais inteiro, especialmente os pneus, que já haviam sido o motivo da queda de rendimento de Regazzoni e Stewart, o rato vai se aproximando a cada volta do francês, tirando rapidamente a diferença.

            E foi então que se pode ver toda sua técnica. Por duas voltas, observou, instigou o adversário ao erro, ensaiou tomadas para, então, a 10 voltas do final, ao aproximarem-se do S do circuito, Fittipaldi ensaiar uma ultrapassagem por dentro, Cevert defendendo-se e mudando o traçado, cedendo apenas o lado de fora da tomada da curva, que se aproximava e atrasando a freada para equiparar-se ao campeão, que, prevendo a ação do rival, freara um pouquinho antes, e aplicar-lhe o X ainda na entrada da curva, com o brasileiro ultrapassando o francês de forma magistral, dando um drible. Inesquecível.

            Não é por acaso que Jackie Stewart, quando perguntado sobre seus rivais, destacava Émerson, dizendo : “quando olho no retrovisor e vejo aquela faixa vermelha (do capacete) chegando com ação, sei que será uma questão de tempo para que ele me ultrapasse, pois ele conhece seu carro, como ninguém. Se ele está vindo rápido, é porque tem reservas”.

             Com o mesmo carro que fora campeão no ano anterior, Émerson começaria o ano imbatível, vencendo as três primeiras corridas seguidas, dentre elas, o 1° GP do Brasil válido para o campeonato mundial. Depois, com o crescimento das novas Tyrrell, a insistência de Colin Chapman de permanecer com a Lótus 72, dois infelizes acidentes com Jody Scheckter e uma fratura no pé, antes da prova de Nurburgring, o campeonato daquele ano voltaria para o “Mestre” escocês. O mesmo que respeitava e temia o “Professor” brasileiro.


FABULOSAMENTE FITTIPALDI 

            Esta foi a manchete de capa da revista italiana Auto Sprint, após o Grande Prêmio da Itália de 1972, quando Émerson Fittipaldi tornou-se o primeiro brasileiro e, à época, o mais jovem campeão mundial da Fórmula 1. 

            Na maioria das vezes em que se faz qualquer retrospectiva sobre pilotos brasileiros e suas conquistas no cenário mundial, inicia-se sempre por Émerson e seu primeiro título. Também, pudera! A partir daquela tarde em Monza, em menos de 20 anos o Brasil ganharia 8 títulos, ou 40% dos campeonatos disputados. E com 3 ou 4 vice-campeonatos! 

            Mas, pesquisando com mais afinco para não ser traído pela memória e cometer erros nesta coluna, voltei à minha coleção de revistas de automobilismo e, imediatamente, mil estórias vividas me vieram à lembrança. Contei algumas e há ainda outras tantas para contar. Porém, o que me impressionou, foi a quantidade de estórias relacionadas com Fittipaldi. E não apenas o nosso Émerson. 

            Tudo começa com o velho Barão, sua voz marcante e seus bigodes brancos, marcantes, sempre bem tratados e penteados, jornalista da Rádio Panamericana e um grande entusiasta e apoio do automobilismo brasileiro. 

            Depois, o temível Wilsinho, piloto da equipe Greco, correndo de Gordini ou Willys Interlagos, rival dos meus queridos DKWs. Era o adversário a ser batido, veloz, consistente e vitorioso. Modesto, nutria verdadeira admiração por Christian Heins, piloto brasileiro que disputava as 24 Horas de Le Mans e, segundo os que acompanharam sua carreira mais de perto, talvez o maior piloto, em talento, de todos os brasileiros vitoriosos que já surgiram. Não é à toa que o filho mais velho de Wilson, chama-se Christian. 

            E então, Émerson. Fabuloso. Um piloto que nos dava a impressão que era fácil fazer o que eles faziam. Quando chegou à F1, encontrou adversários do porte de Graham Hill, duas vezes campeão mundial (e até Senna e Schumacher, o original Mr. Mônaco), Jackie Stewart, campeão, Dennis Hulme, campeão, John Surtees, campeão, Jacky Ickx, campeão mundial de marcas, sem falar nas revelações Ronnie Peterson, Carlos Reutemann, os irmãos Rodriguez, Chris Amon, etc etc. E foi vencedor e campeão nesta turma.  

            O que me surpreendeu mesmo, foi a quantidade de histórias que veio à cabeça, para contar a vocês, sobre os carros que eles construíram. Teve o Fitti-Porsche, um protótipo extremamente veloz, que ganhou o apelido de Pace-Car, pois largava, deixava todo mundo para trás e, lá pela décima volta, ameaçava pegar fogo e ia para os boxes. Consertado, passava todo mundo outra vez, seguia na frente e entrava nos boxes outra vez. E assim ia. Era veloz, mas, aparentemente, pouco resistente. Entretanto, o estoque de criatividade deles e o sonho de construírem um carro não pararia aí. 

            Depois, veio o protótipo com dois motores, um à frente e outro atrás. Desta forma, além de garantir um maior equilíbrio de massas, os irmãos Fittipaldi conseguiriam ter um carro que tracionava nas quatro rodas de forma contínua, fosse nas retas, fosse nas curvas, especialmente na entrada e saída destas últimas. Isto, eles pensaram, projetaram e colocaram em prática 20 anos antes do Audi Quattro e dos controles de tração. Não me recordo se este protótipo teve algum sucesso ou se chegou a correr. Durante meses, as revistas especializadas e nós, garotos, só falávamos nesta máquina dos sonhos. 

            Quando criaram a Fórmula Vê (de Volkswagen), o principal carro era o Fitti-Vê, com o qual Émerson se tornou ídolo nacional, atraindo multidões a todas as corridas e levou-o à Formula 3 inglesa, de onde foi para a F1. 

            Finalmente o Copersucar Fittipaldi. Carros lindos (à exceção de dois), e com conceitos revolucionários, como o “Concorde”, com seu bico lembrando o do avião, sucesso quase 20 anos depois com a Ferrari “Bico de Pato” de Nigel Mansell. Sem falar no último carro, sem patrocínio, cuja equipe tinha um piloto que se tornaria campeão mundial, assim como o engenheiro-chefe, o chefe dos mecânicos, o projetista etc etc. Todos tornaram-se campeões mundiais de F1 poucos anos depois. 

            Será que fomos impacientes? Brasileiros não sabem esperar? Não sei dizer, até porque, naquela época, queria Émerson numa Ferrari, numa Mac Laren e não tinha a dimensão da importância dos trabalhos que eles estavam desenvolvendo. 

            Finalmente, as 500 milhas de Indianápolis. Émerson se igualava à Jim Clark e Graham Hill. Uma marca histórica, indiscutível. 

            Os Fittipaldi, e não só Émerson, estavam anos à frente de nosso tempo. E mais, dedicaram seu tempo, amor e atenção a este esporte que gosto tanto. Não são meros pioneiros e desbravadores, que abriram os caminhos para tantos outros, como se isto, por si só, fosse pouco. Desenvolveram carros, desenhos e equipes, com a visão de quem projeta o futuro. Foram mais do que pilotos. Foram Fabulosamente Fittipaldi!  

            E não há um só autódromo com o nome deles....


A ÚLTIMA CORRIDA DO BRASIL 

            Analisando com olhares de hoje, parece até mentira, mas aconteceu. Seguindo ordens expressas do Presidente da República, o General Ernesto Geisel, e segundo as normas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Petróleo (CNP), em 21 de Julho de 1976 o Conselho Nacional de Desportos proibiu e cancelou TODAS as competições de Esporte a Motor no Brasil, uma medida para redução do consumo de combustíveis e atendendo os anseios da população brasileira, já sacrificada pela nossa errada política face aos choques do petróleo. 

            Porém, a Confederação Brasileira de Automobilismo, a CBA, não havia sido avisada a tempo e prosseguia com seu calendário normalmente. As 12 Horas de Goiânia estavam programadas para 25 de Julho de 1976 e dentre os inscritos viam-se nomes como o de José Carlos Pace, Paulo Gomes, Afonso Giaffone, Reinaldo Campello, Bob Sharp, Edgad Melo Filho, Artur Bragantini, Antônio Castro Prado, Alencar Jr., Fábio Sotto Mayor, Xandy Negrão, Expedito Marazzi, Átila Sipos, Luís Paternostro, José Catanhede e tantos outros. Uma prova de peso, importante. 

            Ao mesmo tempo em que se instalava o pânico entre os organizadores, que procuravam negociar com os dirigentes da CBA, do CND e do CNP, utilizando todo o tipo de argumento contra a proibição, os promotores se aproveitaram e, dois dias antes, começaram a publicar anúncios de página inteira nos jornais de Goiânia, convocando a população a assistir “A Última Corrida do Brasil”.  

            Com a esperada venda de ingressos para a última corrida do Brasil, esperavam cobrir os eventuais prejuízos, caso a Lei fosse cumprida. Até o Ministro da Educação e Cultura (MEC), Ney Braga, foi chamado a intervir em favor dos automobilistas, participando de reuniões com pilotos, dirigentes, organizadores e promotores. Naquele tempo, o CND era órgão daquele Ministério. 

            Depois de muitas negociações e com a promessa por parte da CBA de que, em 60 dias as competições esportivas utilizariam o álcool como combustível, ao som da música tema do filme Grand Prix, com o locutor do autódromo inflamando e informando o público que a largada da última corrida do Brasil estava cada vez mais próxima, finalmente, à 0:00 hora do dia 25 de Julho, os carros partem para a prova. 

            Uma corrida de paciência e poupando os freios da dupla que havia feito a pole-position, Edgard Melo Filho e Afonso Giaffone, que correram no fundo do pelotão da frente durante a noite, lhes dá a vitória. Os Maverick e alguns Opala que partiram muito velozes, apresentaram problemas de freio e iam parando para trocá-los, perdendo voltas preciosas nos boxes. 

            Ao final, algumas surpresas, como a 5ª colocação na classificação geral do Dodge Polara de Fábio Sotto Mayor e João Batista Aguiar e 6ª do Passat de Luis André Ferreira e Mário Pedro Ferreira, à frente dos Maverick e atrás apenas dos 4 Opala. 

            Encerrada a corrida, o locutor do autódromo, rouco, agradecia o Ministro da Educação e Cultura, por sua ingerência, permitindo que o povo goianense assistisse o encerramento das provas do automobilismo responsável por um bi-campeão do mundo de e pela formação de uma equipe brasileira de Fórmula 1. 

            Ainda com a trilha sonora do filme Grand Prix, aos altos brados, pilotos, mecânicos, dirigentes, organizadores e promotores caminham abraçados pela pista, parando na linha de chegada. O emocionado locutor dava adeus ao automobilismo brasileiro. Chegava ao fim a Última Corrida do Brasil. Alguns, na arquibancada, agitavam seus lenços brancos, despedindo-se de seus heróis. Acabava ali as competições a motor no país. 

            Duas semanas depois, seguindo o calendário da CBA, corridas foram realizadas normalmente. O uso do álcool hidratado, como combustível para as competições, só foi colocado em prática alguns anos depois. 

            Mais uma Lei, determinação, decreto, portaria, seja lá o que for, havia sido escrita, mas nunca cumprida. Mas, o povo de Goiânia assistiu a Última Corrida do Brasil!


AS OVELHAS VOADORAS 

Sobre um texto de Rafael Ligeiro 

            Desde a adoção dos aerofólios traseiros, inicialmente nos carros da Can-Am e, pouco mais tarde, nos carros de Fórmula-1, o mundo do automobilismo se deu conta da importância da aerodinâmica. Isto ao final dos anos sessenta.Este talvez seja o aspecto das corridas de automóveis que apresentou maior evolução.  

            No entanto, como tudo no mundo deste esporte apaixonante, as experiências aerodinâmicas já vinham acontecendo há algum tempo, de forma artesanal e experimental. A Fórmula 1 dos anos sessenta, em termos financeiros, não era nem sombra do que se tornou nos dias de hoje.  

            O salário de um segundo piloto, hoje, cobriria o orçamento de uma equipe de ponta daqueles tempos. E foi a era de Jim Clark, Graham Hill, Jack Brabham, Dennis Hulme, John Surtees, Lorenzo Bandini, Bruce McLaren, Jackie Stewart, Chris Amon, Pedro Rodriguez, Jo Sifert, Phil Hill e tantos outros, todos legendários no esporte. 

            Túneis de vento só existiam em raras empresas aeroespaciais, como a Lockheed, a Boeing e a NASA, para citar algumas. Os resultados eram repassados em livros ou estudos acadêmicos, consultados pelos interessados no assunto. Um hélice com cinco metros de diâmetro, duas esteiras, por onde deslizam as rodas e uma réplica do carro, em escala 50%. Atualmente, com a adição dos componentes eletrônicos e de informática, esta instalação não sai por menos do que algumas dezenas de milhões de dólares. É o sonho de consumo de qualquer equipe do circo e ponto obrigatório de visita às fábricas. 

            A utilização do túnel de vento, até o final dos anos setenta, era considerada um luxo quase desnecessário, servindo para testar as asas dianteiras e os aerofólios traseiros dos carros. Então, Colin Chapman e Ralph Bellamy – na Lótus, naquele ano – verificaram que, acelerando-se a passagem do ar sob o monoposto, criava-se um vácuo, possibilitando atingir velocidades extraordinárias nas curvas. Nascia o efeito-solo. A Lótus de 1978 foi apelidada de rocket – o foguete - e era imbatível.  

            Daí para frente todas as equipes passaram a sonhar e utilizar cada vez mais o túnel de vento. A Copersucar, por exemplo, utilizava, desde seu início, o túnel de vento do CTA (Centro Tecnológico da Aeronáutica), para testar seus modelos. Não é de se espantar que desde o FD-01, a equipe sempre apresentava modelos com avanços aerodinâmicos. Vale lembrar que o Concorde, modelo de 1979 da Copersucar – um desastre de chassis, apesar da beleza – foi projetado pelo mesmo Ralph Bellamy. O resto já é história. 

            Voltando aos anos sessenta, alguns construtores já sabiam da importância da aerodinâmica nos carros de Fórmula-1, mesmo que intuitivamente. Jack Brabham, piloto e construtor, desenvolveu um método engenhoso, junto com seu engenheiro, Ron Taraunac.

            Sobre o chassis tubular do modelo BT26, Jack Brabham colou mechas de lã da tosquia de suas ovelhas. Com uma máquina fotográfica aparelhada com motor drive – um motor para rodar o filme de maneira mecânica e não manual, possibilitando tirar fotos seguidas – tirava fotos do bólido coberto de lã, por todo o circuito. Analisando a reação das mechas nas fotos, Brabham e Tauranac identificavam os acertos e as imperfeições aerodinâmicas do carro, corrigindo o projeto, quando possível.  

            Eram as famosas “ovelhas voadoras”, o túnel de vento mais natural e econômico, usando modelos em escala real. Nos dias atuais, quando os Fórmula-1 mais se parecem com carnavalescos carros alegóricos, tal o número de adereços aerodinâmicos, o uso desta técnica deixaria com frio boa parte da população mundial.  


A ÚLTIMA CORRIDA DO BRASIL

             Analisando com olhares de hoje, parece até mentira, mas aconteceu. Seguindo ordens expressas do Presidente da República, o General Ernesto Geisel, e segundo as normas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Petróleo (CNP), em 21 de Julho de 1976 o Conselho Nacional de Desportos proibiu e cancelou TODAS as competições de Esporte a Motor no Brasil, uma medida para redução do consumo de combustíveis e atendendo os anseios da população brasileira, já sacrificada pela nossa errada política face aos choques do petróleo.

            Porém, a Confederação Brasileira de Automobilismo, a CBA, não havia sido avisada a tempo e prosseguia com seu calendário normalmente. As 12 Horas de Goiânia estavam programadas para 25 de Julho de 1976 e dentre os inscritos viam-se nomes como o de José Carlos Pace, Paulo Gomes, Afonso Giaffone, Reinaldo Campello, Bob Sharp, Edgad Melo Filho, Artur Bragantini, Antônio Castro Prado, Alencar Jr., Fábio Sotto Mayor, Xandy Negrão, Expedito Marazzi, Átila Sipos, Luís Paternostro, José Catanhede e tantos outros. Uma prova de peso, importante. 

            Ao mesmo tempo em que se instalava o pânico entre os organizadores, que procuravam negociar com os dirigentes da CBA, do CND e do CNP, utilizando todo o tipo de argumento contra a proibição, os promotores se aproveitaram e, dois dias antes, começaram a publicar anúncios de página inteira nos jornais de Goiânia, convocando a população a assistir “A Última Corrida do Brasil”.  

            Com a esperada venda de ingressos para a última corrida do Brasil, esperavam cobrir os eventuais prejuízos, caso a Lei fosse cumprida. Até o Ministro da Educação e Cultura (MEC), Ney Braga, foi chamado a intervir em favor dos automobilistas, participando de reuniões com pilotos, dirigentes, organizadores e promotores. Naquele tempo, o CND era órgão daquele Ministério. 

            Depois de muitas negociações e com a promessa por parte da CBA de que, em 60 dias as competições esportivas utilizariam o álcool como combustível, ao som da música tema do filme Grand Prix, com o locutor do autódromo inflamando e informando o público que a largada da última corrida do Brasil estava cada vez mais próxima, finalmente, à 0:00 hora do dia 25 de Julho, os carros partem para a prova. 

            Uma corrida de paciência e poupando os freios da dupla que havia feito a pole-position, Edgard Melo Filho e Afonso Giaffone, que correram no fundo do pelotão da frente durante a noite, lhes dá a vitória. Os Maverick e alguns Opala que partiram muito velozes, apresentaram problemas de freio e iam parando para trocá-los, perdendo voltas preciosas nos boxes. 

            Ao final, algumas surpresas, como a 5ª colocação na classificação geral do Dodge Polara de Fábio Sotto Mayor e João Batista Aguiar e 6ª do Passat de Luis André Ferreira e Mário Pedro Ferreira, à frente dos Maverick e atrás apenas dos 4 Opala. 

            Encerrada a corrida, o locutor do autódromo, rouco, agradecia o Ministro da Educação e Cultura, por sua ingerência, permitindo que o povo goianense assistisse o encerramento das provas do automobilismo responsável por um bi-campeão do mundo de e pela formação de uma equipe brasileira de Fórmula 1. 

            Ainda com a trilha sonora do filme Grand Prix, aos altos brados, pilotos, mecânicos, dirigentes, organizadores e promotores caminham abraçados pela pista, parando na linha de chegada. O emocionado locutor dava adeus ao automobilismo brasileiro. Chegava ao fim a Última Corrida do Brasil. Alguns, na arquibancada, agitavam seus lenços brancos, despedindo-se de seus heróis. Acabava ali as competições a motor no país. 

            Duas semanas depois, seguindo o calendário da CBA, corridas foram realizadas normalmente. O uso do álcool hidratado, como combustível para as competições, só foi colocado em prática alguns anos depois. 

            Mais uma Lei, determinação, decreto, portaria, seja lá o que for, havia sido escrita, mas nunca cumprida. Mas, o povo de Goiânia assistiu a Última Corrida do Brasil!


ACB x CBA – A CONFUSÃO TROCA LETRAS

             Manuel de Teffé, diplomata e piloto brasileiro radicado na Europa, resolveu trazer para o Brasil o conceito de circuito de GP, apoiado por Getúlio Vargas e organizado  pelo Automóvel Club do Brasil. Assim, em 1933, promoveu-se o 1o. Prêmio Cidade do Rio de Janeiro, disputado no circuito Niemeyer-Gávea, corrida de estréia do jovem Chico Landi.  

Com o sucesso obtido, o ACB incluiu o GP do Rio de Janeiro como parte do Calendário Oficial da FIA, atraindo para o país alguns dos principais pilotos da época, tornando-se o único e legítimo representante brasileiro perante a FIA. 

Apesar da centralização na Capital da República com a prova internacional, o automobilismo brasileiro prosperava em São Paulo e no Rio Grande do Sul. A partir da inauguração do Autódromo de Interlagos, São Paulo passa a ser o pólo principal de desenvolvimento das corridas no Brasil, polarizando com os gaúchos. As fábricas de automóveis brasileiras, concentradas no ABC paulista, ajudavam a reforçar esta tendência. 

            Durante a década de 50, o jornalista Wilson Fittipaldi, entusiasmado com as corridas de longa duração da Europa, decide trazer o modelo para o Brasil e, com a ajuda de Eloy Gogliano, realiza a primeira edição das Mil Milhas Brasileiras em 1956. Disposto a fundar um automobilismo forte, inicia uma peregrinação pelos Estados do país, criando Federações de Automobilismo e promovendo corridas de todos os tipos. 

            As recém-criadas federações e seus clubes, em pouco tempo, conseguiram organizar um calendário de interessantes provas, de Norte a Sul. O Automóvel Club do Brasil mantinha-se como a única entidade que podia emitir a “licença para pilotar” (hoje conhecida como carteirinhas) e começou a criar entraves para as Federações. 

            Em 1964, o então presidente João Goulart cria, através de decreto, a CBA – Confederação Brasileira de Automobilismo, órgão máximo do esporte a motor brasileiro. No entanto, permanecia com o ACB o reconhecimento internacional junto a FIA. Deste modo, as duas entidades passaram a lutar, através de ações jurídicas e desportivas, pelo direito de mando no automobilismo nacional. 

Esta briga irracional chegou ao cúmulo de produzir calendários esdrúxulos e dois campeonatos brasileiros, com algumas provas em comum! Diante dessa bagunça, o espectador e torcedor brasileiro selecionou e preferia seguir algumas corridas chaves, como as Mil Milhas, os 1.000 KM de Brasília, as Três Horas da Guanabara e outras tantas. Esta é a razão pela qual as revistas da época destacavam as corridas em si e não os campeonatos. Também é a principal explicação porque o campeonato paulista, mais organizado e contando com o autódromo de Interlagos, era mais importante que o campeonato brasileiro (até porque ninguém sabia ao certo de qual campeonato brasileiro estava se tratando).

As entidades também passaram a punir pilotos brasileiros com suspensões automáticas caso participassem de provas organizadas por esta ou aquela agremiação. Assim pilotos nacionais de nome e envergadura muitas vezes foram suspensos pelo simples fato de estarem exercitando sua profissão ou esporte favorito, apenas por retaliação ora da CBA ora do ACB, entre eles Piero Gancia e o próprio Emerson Fittipaldi. 

Até mesmo as participações da Vemag e Willys em El Pinar no Uruguai, do monoposto Gávea na temporada internacional de F-3 argentina e da Simca no GP Argentino de Turismo de 1966, dependeram de gestões no ACB e o uso do prestígio pessoal de Luis Antônio Grecco e Chico Landi junto aos dirigentes nacionais. 

Em 1968, Ricardo Ashcar, piloto carioca campeão brasileiro de Fórmula Vê vai à Inglaterra e, após fazer um curso de pilotagem, consegue a licença inglesa do Royal Automobile Club, ficando apto a disputar corridas. Ashcar vence logo na estréia e quebrou um paradigma, abrindo caminho para que os nossos pilotos pudessem correr lá fora.  

Émerson Fittipaldi foi um destes e, com apenas quatro meses na F-Ford, foi promovido para a F-3 inglesa, sagrando-se campeão, disputando só a metade da temporada. Na Fórmula Ford, Émerson correu como piloto filiado ao Royal Automobile Club. 

            Esta confusão troca letras chegaria a seu final apenas nos primeiros anos da década de 1970, quando Émerson já corria na F-1 e o Brasil sonhava em sediar uma das corridas do campeonato mundial,  através de imposição da ditadura militar.

Na esteira do sucesso dos brasileiros no exterior e farejando uma oportunidade de abrir novos mercados, John Webb, proprietário dos circuitos de Brands Hatch, Oulton Park, Mallory Park e Mondello Park, conseguiu convencer a empresa aérea BUA a patrocinar aqui um torneio internacional de Fórmula Ford.

 A noviça TV Globo, inaugurada em 1965, viu também ali uma boa oportunidade e um diferencial com relação às suas concorrentes que só transmitiam futebol, e investiu pesado na realização do então nomeado Torneio Internacional BUA de Fórmula Ford, tornando-se uma das co-patrocinadoras. O Torneio previa a realização de cinco provas, sendo duas no Rio de Janeiro (sede das duas empresas patrocinadoras), uma em Curitiba no anel externo, outra na longínqua Fortaleza e a final em Interlagos.  

O Torneio BUA de Fórmula Ford.  

Mais de vinte carros vieram ao Brasil, representando o melhor da modalidade: Royale, Merlyn, Macon, Titan, Lotus, Hawke Mistrale e Lola, que seriam pilotados pela fina flor da Fórmula Ford européia, os ingleses Ian Ashley, Tony Lanfranchi, Ray Allen, Clive Santo, Peter Hull, Reg James, Ed Patrick, Sid Fox, o escocês Tom Walkinshaw, o italiano Valentino Musetti, o dinamarquês Tom Belso, os autralianos Vern Schuppan e Max Fletcher e até duas mulheres, a holandesa Liane Engeman e a alemã Gabrielle Konigg.  

A este batalhão de europeus se juntaram as nossas estrelas Émerson Fittipaldi (Lótus), Luisinho Pereira Bueno (Merlyn) e Ashcar (Lola T-200) e outros pilotos nacionais, como Milton Amaral, Norman Casari, Marivaldo Fernandes, José Moraes Neto, Wilson Fittipaldi Jr., Pedro Victor DeLamare e Chico Lameirão. 

A primeira etapa deste Torneio, no Rio de Janeiro, atraiu um público de 35.000 pagantes e lotou o antigo circuito de Jacarepaguá, causando sérios problemas de invasão de pista e boxes. Émerson vence esta etapa, após duelo com Luisinho Pereira Bueno e o inglês Ray Allen. Wilsinho Fittipaldi e Norman Casari, estreantes na categoria, fazem boa figura, chegando em quinto e sexto, respectivamente. A segunda etapa foi realizada pelo anel externo do Autódromo de Pinhais e, livres da desorganização que acontecera no Rio de Janeiro, Ian Ashley e Ray Allen disputaram duramente com Émerson Fittipaldi e um surpreendente Marivaldo Fernandes, chegando a médias superiores a 160 Km/h. Vitória de Ian Ashley, seguido de Marivaldo Fernandes e Ray Allen.  

Da bem organizada etapa de Curitiba, pilotos e carros lançaram-se numa verdadeira aventura sul americana rumo à Fortaleza. Carretas quebradas no meio da estrada atrasam os treinos e os organizadores ingleses são mantidos em prisão domiciliar no hotel por ordem de um tenente coronel da PM (que, por coincidência, era presidente da Federação Cearense de Automobilismo). Os pilotos europeus ensaiam um boicote, a prova ameaça não se realizar. No auge da crise, Richard Barley, o representante de John Webb no Brasil, discute com o secretário geral e homem forte da CBA, Ramon Von Buggenhout, terminando por mandar-lhe um tapa na cara. Os carros chegam à Fortaleza na madrugada de Sábado para Domingo, poucas horas antes da largada, pondo fim à bagunça. Na pista, Émerson Fittipaldi levanta sua segunda vitória, à frente de Luisinho e Ian Ashley. 

Do drama de Fortaleza carros e pilotos retornam ao Rio de Janeiro, onde novamente o atraso das carretas transportadoras protelam o treino classificatório para a manhã de domingo. Luis Pereira Bueno vence as duas baterias, com Émerson em segundo, um excelente Norman Casari em terceiro, Ian Ashley em quarto, Wilsinho em quinto, Marivaldo em sexto e o carioca Milton Amaral em sétimo, provando a grande adaptabilidade o talento dos pilotos brasileiros.

 A última etapa foi realizada em São Paulo e a maior dificuldade dos pilotos estrangeiros foi a adaptação ao circuito de quase oito quilômetros, uma enormidade para os padrões de pista da Fórmula Ford Européia. Émerson vence a corrida, sagrando-se campeão do Torneio, com o irmão Wilson em segundo, seguidos dos ingleses Ian Ashley e Ray Allen, os melhores estrangeiros do Torneio. A grande surpresa foi o quinto lugar de outro estreante brasileiro, Francisco Lameirão.


IMPREVISÍVEL, IMPRESSIONANTE, MÁGICO GILLES

             Possuo um livro sobre a Ferrari, cujo texto é de Mauro Forghieri, engenheiro da equipe por muitos anos. Descreve em detalhes os modelos, suas qualidades, suas fraquezas, etc e também comenta sobre os pilotos com quem conviveu. 

            Neste último tópico, o engenheiro tece rasgados elogios a Niki Lauda, por sua capacidade de diagnosticar o que ia mal num carro e também de indicar possíveis ajustes que quase sempre melhoravam o desempenho deles, além de ser um piloto muito rápido e muito técnico. 

            Quando chega no nome de Gilles, ele muda o tom e comenta: “... com ele era muito difícil saber se o ajuste que fizéramos tinha trazido melhoras ou pioras. Às vezes, analisando os dados que obtínhamos do carro, tínhamos a impressão, até por outros referenciais, que não estava bom; o Gilles ia lá e virava tempo! Por outras vezes, ao contrário, tínhamos a certeza de que o desempenho seria espetacular e o resultado era horrível! Com ele nunca dava para saber, pois se ele estava naqueles dias endiabrados, ele fazia tempo até de trator...”  

            O cara era assim mesmo: alternava lambanças históricas com corridas memoráveis. Era totalmente imprevisível. Não, minto: a única coisa previsível nele era sua imprevisibilidade. E o que ele fazia na pista.... 

            Quase ninguém consegue se esquecer de sua corrida no Canadá, com apenas um dos “bigodes” da Ferrari e ainda virado para cima, numa pista escorregadia, trazendo emoção a cada freada ou tomada de curva. O carro balançava para tudo que é lado e o cara controlava no braço. Só não me lembro, ao certo, se foi o GP de 78, quando venceu ou o de 79, quando foi segundo. De qualquer forma, sua atuação foi tão inesquecível, que tanto faz: todos se lembram apenas dele, o Mágico. 

            Em 1979, em Monza, a Ferrari fez dobradinha, com Scheckter em primeiro e Villeneuve em segundo. À chegada, a tradicional euforia dos tiffosi tomava conta do autódromo, mas era Gilles quem eles reverenciavam. Depois da morte de Peterson, foram colocadas diversas chicanes no circuito. Como no Brasil, foram construídas à última hora e, portanto, eram apenas retalhos de grama, com zebras amigáveis, reduzindo a velocidade nas retas. Gilles analisou e, contrariando a regulagem do companheiro, pediu suspensão e molas moles. Durante a corrida, em vez de comportadamente fazer as chicanes, ele voava por sobre elas. Um espetáculo impressionante! 

            Mas, uma cena que me marcou, aconteceu durante os testes de pneus, naquele mesmo ano de 79, em Interlagos. Nosso autódromo era utilizado pelas fábricas de pneus para a realização dos testes de inverno, preparatórios para o ano seguinte. Durava uma semana, no máximo. Eu passava os dias lá, às vezes para assistir poucas voltas de um só carro, ou muitas voltas de muitos. Os treinos se arrastavam por todo o dia. Mas, aconteciam coisas que valiam a pena, como enganar a segurança e ficar nos boxes, por exemplo. 

            Num desses dias, já amigo dos mecânicos da Ferrari e um dos bicões das famosas macarronadas sobre os caixotes da equipe, vemos Gilles subir a reta dos boxes, muito, muito rápido e se aproximando da curva 1 (era o traçado antigo), sem dar pinta de que iria reduzir ou frear. Faz um leve punta-taco, dá um tico de freio, sem tirar o pé do acelerador, inclina o carro um pouco de lado e, sem nunca tirar o pé, faz a curva, segue acelerando, faz a curva 2 e entra no retão como um foguete. 

            Todos, nos boxes, ficam absolutamente parados, incrédulos: acabavam de ver alguém realizar o impossível! Pilotos, chefes de equipe e mecânicos, se aproximam da mureta à medida que o barulho dos 12 cilindros vai ficando mais perto. Lá vem ele! E faz de novo, ainda mais rápido! Carro derrapando nas quatro, motor rugindo e um festival de abraços, gritos e aplausos nos boxes. 

            Quando, na volta seguinte, ele encostou o carro, os mecânicos da Ferrari foram todos, todos mesmo, abraçá-lo. Arrancaram-no do carro de uma maneira, que, no mínimo, lhe fraturou algumas costelas. Carregaram-no para dentro dos boxes. A macarronada virou uma festa, e eu e mais uns penetras entramos nela. Eram abraços, choros, risos e todos pedindo para ele contar de novo e de novo, como havia feito aquilo. 

            Esse era Gilles. Impressionante, imprevisível, mágico. A paixão dos mecânicos e de alucinados como nós. Era o cara capaz de fazer coisas sobre-humanas, realizar o impensável. Não é à toa que, com apenas 6 vitórias na carreira e nenhum título, tenha uma estátua sua na sede da Ferrari. Se a fábrica não fizesse, os mecânicos fariam!


O BEATLE E O APATETADO

             Depois de uma prova no Rio, em Jacarepaguá, a Fórmula 1 voltava à sua casa, em Interlagos, no antigo traçado. Nós, paulistas, sentíamo-nos desconfortáveis, pois, dependendo da organização, a prova poderia voltar ao Rio. Fortes rumores davam como inevitável a ida definitiva do GP Brasil para lá. No ano anterior, 1978, a Lotus com seu modelo, apelidado de “rocket” (foguete) ganhara tudo e lançara o carro asa. Neste ano, amplo domínio das Ligier nos treinos, um verdadeiro passeio. De nariz torcido, um ferrarista como eu, teria de apoiar Jody Scheckter, um piloto com uma reputação ruim. 

            Mas, naquele ano, nada disso era relevante. Amigo pessoal de Jackie Stewart e Émerson, o Beatle George Harrison estava aqui. Mesmo para os ídolos da F-1, um Beatle era um Beatle, uma entidade superior, um semi-Deus. Eu, também dos 4 de Liverpool, poderia ver o meu Beatle predileto, de quem tinha todos os discos solo. E ele ainda havia homenageado todo aquele circo, com sua música “Faster”, que já era sucesso. 

            Fui até o Guarujá, à frente da casa dos Fittipaldi, onde ele estaria hospedado e ... nada. Consegui uma credencial VIP, que dava o direito de circular em todos os pontos do autódromo e, durante os dois dias de treino, após os carros deixarem a pista, procurei-o como um louco. Nada. No Domingo da corrida, utilizando-me de todos os conhecimentos dos tempos de “rato” de Interlagos, vasculhei cada canto do autódromo e não encontrei-o.  

            Veio a corrida, um pouco sem graça, as Ligier passeando, o Copersucar ainda em evolução, sem dar a Émerson o carro que ele merecia, Pace vinha bem e veloz, como sempre, mas não era páreo para as Ligier, as Ferrari atrás, fazendo 5° e 6° e a organização não tinha ido bem, não. O GP terminava com gosto de despedida, já com uma certa nostalgia no ar. Interlagos sediaria ainda o GP do ano seguinte e só voltaria a ter a Fórmula 1, novamente, em 1990, dez anos mais tarde, com o novo traçado. 

            Conformado, voltava para os boxes, subindo o barranco da curva do Laranja, por uma daquelas estreitas trilhas de terra no meio da grama, quando, já no topo, na reta dos boxes, esbarrei em um gringo e até me segurei nele, para não cair barranco abaixo de novo e ele me deu apoio e saiu caminhando. “Excuse-me, and thank you” falei ao gringo. Ele se virou, olhou para mim, acenou, deu um sorriso e seguiu em direção aos boxes. 

            Era ele!!! A menos de dois metros de mim, caminhando e eu, lá sem conseguir falar nada, só olhando. George Harrison ainda deu mais uma olhada para trás, acenou de novo, sorriu e foi para os boxes. O apatetado “rato” quase caiu do barranco e, só quando o Beatle entrava nos portões dos boxes, conseguiu gritar um patético : “Mr. Harrison...”. Mas, já era tarde, ele estava longe. Não é todo o dia que um semi-Deus lhe dá a mão. Essa é a minha maior recordação daquele GP. Como foi a corrida? Já esqueci, o Beatle, nunca.


INTERLAGOS – O CANTO DO CISNE

            Final da década de 70. Desde que o Brasil havia conquistado o direito de sediar uma das provas da F1, Interlagos foi o templo escolhido. No ano anterior, ao mesmo tempo em que a Prefeitura de São Paulo alegava que não tinha verbas para realizar as reformas exigidas pela FIA, numa astuta jogada política, a cidade do Rio oferecia seu autódromo, recém-construído, moderno etc. Como principal destino turístico do Brasil e a mais conhecida cidade do país, os cariocas pregavam que, por direito e fato, a prova da Fórmula 1 deveria ser lá sediada. Para nós, paulistanos, um profundo e doído golpe. Eles já tinham o Maracanã! Portanto aquele ano era nossa última chance. Ou, pelo menos era o que os políticos daqui falavam. Tudo dependeria da organização. Alguns desesperados, como eu, foram chamados como voluntários, formando um verdadeiro exército de bem-intencionados a manter a prova aqui. 

            Mas, desde o início da preparação, dava para antever o desastre. A começar pela sala de imprensa, uma das maiores exigências dos organizadores do “circo”, a “nova” sala, improvisada (próximo à torre de cronometragem, onde hoje se monta uma das arquibancadas especiais – ao lado da arquibancada do laranjinha) tinha capacidade para, no máximo 120 profissionais de imprensa trabalhando juntos. A sala de imprensa, seria um dos pontos chaves na avaliação. Segundo os rumores da época, com boas  notas o GP voltaria para cá.  

            Vale lembrar que, naquele tempo, o computador que captava os tempos oficiais dos carros eram muito lentos e necessitavam dois cronômetros mecânicos como confirmação, além de emitir relatórios impressos em papel termo-sensível, para que pudessem ser enviados através das máquinas de teletipos.Os equipamentos eram enormes