Coluna do Roberto
Brandão
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ORGULHO PAULISTANO
Neste final
de campeonato de F-1 de 2007, escrevo com
uma enorme ponta de orgulho em meu coração.
Volto do autódromo de Interlagos feliz, após
ter assistido a uma grande e emocionante
corrida, mas principalmente por tudo aquilo
que vi, vivi e presenciei.
Como
habitante desta metrópole brasileira, São
Paulo, e amante das corridas de automóvel,
sempre tive orgulho do primeiro autódromo
brasileiro, o atual José Carlos Pace.
Crescemos juntos, a indústria
automobilística brasileira e eu. Ambos,
carros nacionais e eu, precisávamos ser
conduzidos por alguém até aquele lugar
encantado, que íamos descobrindo e
desvendando a cada nova corrida.
Desta forma,
a então distante pista de competições,
transformou-se num lugar mágico, palco e
espetáculo, pelo que nutro o maior carinho e
orgulho. Os grandes nomes do automobilismo
brasileiro, só eram assim considerados após
vencerem, por mais de uma vez, os desafios
de um dos mais perfeitos traçados do mundo.
Vi o
autódromo passar por várias mudanças e
cirurgias profundas, sempre visando sua
melhoria. A que mais me doeu foi a criou o S
do Senna, mutilando algumas das melhores
atrações do traçado, como as curvas 1 e 2, a
curva da Ferradura, etc. Senna foi o único
grande piloto brasileiro que saiu direto do
Kart para a Europa, sem passar pelo
circuito. Talvez por isso, não se importou
muito em mutilar um dos mais completos e
belos traçados do mundo.
Porém, a
conservação da lendária pista foi sempre um
problema. Só recebia algum tipo de
manutenção e melhoria, às vésperas da
corrida de Fórmula 1. No restante do ano, o
circuito ficava largado, aproveitando-se da
manutenção realizada para sua prova máxima.
Essa característica ficou no passado.
Nos últimos
dois anos, voltei a freqüentar o autódromo,
como fazia na década de 70, indo lá uma vez
a cada mês, no mínimo. Me surpreende e me dá
uma ponta de orgulho verificar o estado da
pista e das instalações. Tudo limpo, grama
cortada, asfalto em ordem, banheiros
funcionando. Nunca vi o autódromo assim, por
um período tão longo.
E o que dizer
após as reformas para a Fórmula 1 deste ano
de 2007? Novas e boas arquibancadas
cobertas, cabines de rádio, banheiros com
piso de granito e instalações mais do que
adequadas, asfalto quase perfeito, zebras em
ordem e boa organização. Interlagos é um dos
poucos lugares públicos do Brasil que possui
uma rede sem fio para computadores.
Quando
comparado aos mais recentes e modernos
circuitos do mundo, pode-se dizer que ainda
há muito o que ser feito em nosso autódromo.
Porém, aquele complexo de vira-lata não mais
existe. Interlagos voltou a ser orgulho dos
paulistanos, dos paulistas e de todos os
brasileiros. Parabéns a esta administração
que tem mostrado como se faz um trabalho bem
feito e o mantém como tal.
Roberto Brandão Teixeira
brandao.roberto@attglobal.net
PAIXÃO NÃO SE EXPLICA, VIVE-SE (2)
Tomo
a liberdade de utilizar o título de uma coluna escrita por Paulo Peralta, no ano
passado, para dar uma outra conotação, ao mesmo tema.
Um
ano especial, aquele. Os “Embalos de Sábado à Noite”, o primeiro emprego, o
Papagaio´s, o Hippopotamus , o Banana Power, o Tamatete, calça Fiorucci, camisas
de seda, Passat Dacon (sem vidro bolha), festas no Rio, davam a ilusão de ser o
Travolta burguês Tupiniquim. Era o próprio “comigo ninguém podemos”. Afinal era
a década do “Brasil Grande” e sobravam empregos no país, apesar da ditadura, dos
empréstimos externos, etc. Mas, para mim, naquele ano, tudo estava bom.
As
viagens ao Rio me deram a chance de conhecer uma porção de meninas muuuito
interessantes e, para os padrões da época, eu até que estava me dando bem. O GP
Brasil se aproximava (seria em Interlagos) e todos já sabiam que eu ficaria por
aqui para assistir. Já tinha comprado meu ingresso para a arquibancada “A”,
quando recebo um telefonema surpreendente :
-
“Oi, cê vai assistir a corrida?” Voz e questionamento femininos, perguntando o
óbvio, como se não soubesse.
-
“Claro, já comprei o ingresso...” Pelo silêncio e um pequeno muchocho do outro
lado, percebi que, como sempre, havia falado demais (parece que com mulheres, é
sempre assim – devemos nos restringir a ouvi-las, e falar o que elas querem).
- “É
que meu pai conseguiu dois ingressos e eu queria saber se são bons, e se você
gostaria de ir comigo. Aqui diz Terraço de Box... (onde se situa o
Paddock, hoje, sobre os boxes, sem cobertura e umas cadeiras de ferro – tipo
boteco – espalhadas)”.
- “O
quê ??? Como ele conseguiu ??? É lógico que vou com você !!! Você tem idéia de
onde fica isso ?? Nossa, dá para ver todo o circuito e fica encima dos boxes!!!”
Não conseguia parar de falar, fiquei excitado, mas só falava em autódromo,
circuito, curvas, carros, etc. Acho que nem agradeci.
Fui
correndo contar a meus pais que, bem-educados, me perguntaram se eu havia
oferecido nossa casa para ela se hospedar durante o final de semana da corrida.
Óbvio, havia esquecido. Lá fui eu ligar para ela para convidá-la para ficar em
casa.
Na
sexta-feira de treinos, fomos aos nossos privilegiados lugares e mostrei tudo à
moça. O circuito, as retas, as curvas, onde era melhor ultrapassar, etc.
Descemos para os boxes e eu, como criança deslumbrada, ia vendo tudo, contando
tudo de motores, equipes, pneus, suspensão, assuntos bem apropriados para a
ocasião.
Fomos
obrigados a sair quando os boxes seriam fechados e o treino iria começar.
Voltamos a nossos lugares, naquele descampado elevado sobre Interlagos, quando
começou uma brisinha fria (total novidade para o autódromo – nunca esfria por
lá...) e ela se aninhou em meus braços.
Aproveitei o momento quase íntimo para agradecê-la por tudo e, brincando,
comentei :
-
“Feliz do cara que ficar com você, será sempre bem tratado” foi a melhor maneira
de tentar animá-la, lembrando que fazia um tempão que ela só ouvia sobre carros,
motores, corridas pistas e pneus. Um assunto diferente talvez a interessasse
mais, especialmente se fosse conduzido para uma conversa mais íntima.
Ela
me olhou com seus olhões castanhos e uma cara de menininha e foi falando :
-
“Esse cara é....” neste exato instante deram partida no motor da Ferrari, cujos
boxes estavam bem abaixo de nossos pés. Virei na direção do parapeito, me
levantei e fui ver a Ferrari sair “... você”, ela já sem graça, uma vez que eu
não tinha prestado atenção no que ela falara.
- “Vem cá, vem
ver os carros sair ....” disse, animado.
Ela balançou a
cabeça negativamente, ficou com uma cara meio fechada, enquanto eu me divertia,
olhando a saída dos boxes e acertava os cronômetros.
Durante o resto
da sexta-feira, nenhuma outra tentativa de aproximação mais íntima e a cara meio
esquisita. Só quando estávamos voltando para casa, enquanto conversávamos sobre
assuntos diferentes de corridas, me veio à memória aquela cena e a percepção do
fora que eu havia dado.
Compensei-a com
uma noitada nas melhores discotecas de São Paulo, tentando criar alguma situação
em que eu explicasse a ela o que havia acontecido. Tivesse acontecido hoje, eu
sequer teria tentado explicar a situação para uma mulher. Melhor deixar passar,
pois nós, homens, estamos sempre errados sob o ponto de vista feminino.
Mas,
inexperiente, tentei explicar : Piorou. Já devia saber : paixão não se explica,
vive-se.
DÁ UMA SAUDADE DE CASA....
Tive
oportunidade de conhecer, por um curto período de tempo, há muitos anos, Edgard
de Mello Filho. Quando o conheci, ele já era um piloto consagrado, que íamos
assistir em Interlagos. Mas foi como piloto de testes da GM e como um bom
camarada que tive contato com ele, pela primeira vez.
Estava eu, primeiro emprego, como Engenheiro responsável pela construção do
Laboratório de Testes da GM, na Fazenda Cruz Alta, entre Itu e Indaiatuba. Seria
a primeira construção industrial, de porte, naquela fazenda, que ainda
preservava algumas plantações. A principal atração lá era a pista de testes.
Mas, a obra que eu fazia ficava num platô, a uma certa distância. Sorte que
tínhamos o teodolito, com sua poderosa luneta.
Numa
ocasião, pude ver, lá de cima, um carro diferente. Corri, armei o teodolito,
nivelei-o e ... lá estava ela : a perua Chevette, que depois seria conhecida
como Marajó. E estavam também os novos Opalas, com a frente quadrada e faróis
retangulares. Para um aficionado, uma bela visão. Antes de todo mundo eu estava
conhecendo os novos modelos.
Na
hora do almoço, eu sabia que todos os envolvidos no projeto estariam reunidos,
na casa da Fazenda, comendo. Seria uma boa hora. Usando trilhas e atalhos que já
conhecia, cheguei pelos fundos e reparei que o galpão, normalmente aberto, que
era usado como garagem, estava coberto com lonas.
“Estão ali dentro” pensei. Sorrateiramente, me aproximei do local, levantei um
pedacinho da lona e fui me esgueirando para dentro do galpão, quando senti um
puxão pelo ombro. Dois seguranças haviam me pegado!
O
gerente da fazenda (acho que o nome era Nelson, ou Edson), que também fazia o
papel de fiscal da obra, me colocou no banco de trás de uma Veraneio, ladeado
pelos dois seguranças e começou um sermão, que parecia não ter fim. Mais que um
sermão, gritava, dizendo que eu havia violado um segredo de fábrica, segredo
industrial e isso era crime! E eu, sem poder me mexer, falar ou sair, só pensava
nas conseqüências, no emprego, na peãozada lá em cima, me esperando, e na
humilhação.
Aí,
apareceu o Edgard. Reconheci-o na hora. Falou com o tal gerente, explicando que
isso era normal, um garoto gosta de carros, viu um diferente e veio ver etc etc.
Conversou por mais de uns quinze minutos e convenceu meu carrasco a me liberar,
depois de mais de uma hora de tortura. Nunca me esqueci deste gesto do Edgard:
generoso, simpático, camarada.
Durante todo aquele mês, Edgard aparecia na fazenda, praticamente todos os dias.
Muitas vezes íamos almoçar juntos em Indaiatuba, onde, na praça principal tinha
um restaurante que servia um filé maravilhoso. Conversávamos muito sobre carros,
é lógico.
Um
dia, já sabendo de todas as minhas peripécias ao volante, e de minha vontade de
andar em Interlagos, ele me fez um convite :
-
“Sábado que vem, vamos testar algumas modificações nos carros de corrida e, se
você quiser, pode ir comigo, a gente dá uma volta juntos”.
Incrédulo,extasiado e esfuziante, topei na hora.
Veio
o Sábado e lá estava eu, no meio de uma porção de Opalas Stock Cars da época, os
carros mais potentes de nossas pistas. Olhava tudo maravilhado, o trabalho dos
mecânicos, os engenheiros, as conversas. O coração quase parou quando ouvi o
Edgard falar :
-
“Põe o banco do passageiro, o garoto vai testar comigo!”
Entramos na pista, traçado antigo, e, nas primeiras voltas ele foi me explicando
cada tomada, cada freada, as características de cada pedaço, onde tirar tempo,
onde não se podia errar, onde dava para aliviar. Daí, ele resolveu mostrar como
era, de verdade.
Viemos voando na reta dos boxes, tomada da 1, acelera, tomada da 2, e pé
totalmente cravado no retão. Placa dos 300, vem a dos 200, num piscar de olhos e
nada do homem frear. Ao contrário: continuava acelerando. A Curva 3, inclinada,
ali à frente, parecia uma enorme onda sólida de Tsunami. “Não vai dar”, pensei
apavorado. Reação automática, comecei a frear num pedal imaginário. Hoje, me vem
à cabeça um famoso bordão criado pelo próprio Edgard de Mello Filho, anos
depois, “Dá uma saudade de casa!” E deu.
Voltando aos boxes, o sempre bem-humorado Edgar fala para os mecânicos:
- “Dá
uma olhada no assoalho, o garoto bateu tanto o pé que deve ter afundado!” E saiu
rindo...
Acho
que ele nem se lembra mais dessa passagem na sua vida. Mas eu jamais a esqueci.
E sinto falta do Edgard narrando ou comentado. Onde está você?
DERRAPAGEM CONTROLADA
A
ficção científica sempre povoou a imaginação dos homens e, a partir da década de
50, quando começaram as primeiras viagens espaciais, tornou-se quase uma mania.
A humanidade ansiava por inovações tecnológicas, fossem quais fossem. Na década
de 60, então, revolucionária, chegamos a discutir se e quando os cérebros
eletrônicos, nome dado aos computadores à época, iriam nos substituir.
Tínhamos fome de tecnologia. Em nome desta fome, as mais estranhas invenções
apareciam no mercado a todo o momento. Já se projetavam os automóveis do futuro,
os robôs domésticos e tudo mais que nossa imaginação poderia sonhar.
Este
desejo tão grande de inovar e buscar novidades tecnológicas a qualquer custo
tomou um enorme impulso nas corridas de automóveis, um grande laboratório para
todo o tipo de experiências. Basta se comparar as Mercedes campeãs com Fângio e
as Mercedes (McLaren) atuais. Enormes modificações ocorreram nos motores,
câmbio, suspensão, freios, rodas, pneus, desenhos, aerodinâmica, posicionamento
do piloto, volante, assento, pedais, etc etc, até mesmo os materiais utilizados.
Os carros de hoje pouco ou nada utilizam daqueles do início da década de 60.
A
tecnologia nos trouxe um sem-número de melhorias que aplicamos em nossos carros
de passeio nos dias de hoje. Trouxe mais velocidade, maior estabilidade mas,
como algumas expressões artísticas nos alertavam, nos tirou um pouco do
romantismo, do brilho, do espetáculo. Especialmente nos esportes. As táticas
prevaleceram sobre a técnica e o físico e o tecnológico prevaleceram sobre o
mágico. Temos as exceções, os fora-de-série de qualquer esporte. Seriam mágicos
em qualquer tempo, contra quaisquer adversários, com qualquer tecnologia.
Ainda
me lembro das primeiras discussões sobre tangências e vácuos, algo que nem se
cogita atualmente, tão óbvio que se tornou. Mas, àquele tempo era um assunto
quente, tido como novidade. Igualmente inovador e motivo de muitas conversas,
foi a adoção dos pneus slic. Basta lembrar que, em 1969, ano do bi-campeonato de
Jackie Stewart, ainda se usavam pneus com estrias. Me recordo de edições das
revistas especializadas em automobilismo, tratando e debatendo estes assuntos
Uma
das formas para se frear mais “dentro” da curva, apontar o carro para uma
tangência perfeita e já preparar o carro para uma saída de curva rápida,
retomando a velocidade, eram as derrapagens controladas. Víamos os carros
“saindo nas quatro”, com as rodas dianteiras apontando para o lado contrário da
curva, o volante virado para o outro lado e os pilotos, com grande destreza,
controlando a derrapagem. Era lindo! As melhores fotos daquela época, sempre
mostram uma disputa na curva, com os carros “tortos”, dando a impressão de
velocidade e arrojo.
Atualmente, temos a oportunidade de assistirmos a estas façanhas no Mundial de
Rallye, apesar de toda a tecnologia embarcada. Ainda é um recurso muito
utilizado e que faz a torcida suspirar e vibrar cada vez que acontece. É pura
mágica!
A
última vez que vi uma cena destas, na Fórmula 1 e no seco, foi naquela
ultrapassagem de Nelson Piquet sobre Ayrton Senna no Grande Prêmio da Hungria.
Que maravilha! Que arrojo!
Posso
parecer saudosista, mas sinto falta daquelas emoções. Rever as fotos antigas,
como uma, em Interlagos, com Émerson e sua Lotus à frente de Ickx e sua Ferrari,
ambos em uma derrapagem controlada, enchem nossos olhos. Sempre haverá espaço
para os mágicos, apesar de toda a tecnologia. Mas, naqueles tempos, eles nos
passavam a clara impressão de sobre-humanos, de pilotos que controlavam suas
indóceis máquinas. Eram lances que viravam assunto na semana posterior, onde
cada qual incluía a sua emoção no relato.
(Aconteceu num
Farnel...)
Luizão, recentemente saído de um logo relacionamento, vivia com cara de Senador
derrotado nas eleições, pelos cantos, e Tommy, outro amigão resolveu animá-lo e
arranjar-lhe um encontro às escuras. Ficou tudo combinado para um de nossos
farnéis em Interlagos e nossa expectativa era grande. Segundo Tommy, a
pretendente possuía bons atributos físicos e mentais.
No
Sábado, entre tantos convivas e reencontros, fomos apresentados à moça e tivemos
a comprovação de que nosso amigo não mentia : simpática, falante, dominando
vários assuntos e bem apresentável, nos dava a impressão que tudo iria correr
bem. Após o cerimonial de apresentações e introduções, deixamos os dois se
conhecendo melhor.
Verificada a suspensão, o estado dos freios, uma última olhada no motor, a
calibragem dos pneus, inicia-se a volta de apresentação, aquecendo-se os pneus,
fazendo temperatura do óleo vai subir, testando as rotações do coração em
progressiva aceleração, aquele friozinho na barriga, o olhar fixando-se e
estudando as curvas, as saliências, os buracos, os obstáculos, as ondulações, a
mente concentrando-se na melhor estratégia, a cabeça desenhando a tática a ser
utilizada para tomar e dominar cada curva à frente, apreensão, expectativa e
ansiedade.
Dada
a “largada”, Luizão começa a sofrer ataques por todos os lados. A moça, com óleo
e pneus bem aquecidos, motor corretamente lubrificado e ronronando sem falhas,
parte para cima de nosso amigo. Tenta por dentro, por fora, na entrada e saída
de curvas, nas freadas e nas retomadas. Luizão, apesar de experiente piloto,
sente os ataques da outra máquina e percebe que, a qualquer momento, irá
sucumbir e será dominado.
De
repente, não conseguimos mais visualizar Luizão no circuito. O que será que
aconteceu? Saiu numa curva? Errou uma freada? Acelerou demais? Com os olhos,
procuramos em vão. Quase imediatamente, surge a moça, apreensiva : “Vocês viram
o Luizão? Estávamos num ponto interessante da corrida e ele sumiu...”
-
“Deve ter feito uma parada nos boxes e está por lá” arriscamos. Afinal, o
esforço pode ter sido grande para aquela máquina já rodada.
E lá
foi ela, procura-lo nas áreas dos boxes, ao encalço de seu objetivo.
Já
estávamos desistindo da procura, quando entro no banheiro e encontro Luizão,
escondido num dos boxes. Pergunto se está bem, se aconteceu alguma coisa e vem a
resposta :
-
“Ando um pouco destreinado e ela veio com tudo! Não deu para agüentar. Estou
aqui dando um tempo para ver se ela se manda, ou se dá uma brecha para eu sair à
francesa”, e seus olhos refletiam o desespero.
Como
uma boa confraria masculina, inventamos uma desculpa qualquer, a moça ficou
decepcionada e decidiu abandonar a competição e voltar para casa.
A
história é verdadeira, porém os nomes e os locais foram ligeiramente alterados
para preservar as pessoas.
Como
diz meu amigo, escritor, contador de casos e grande filósofo Joaquim, “Quem não
tem nada para se envergonhar, na vida, não viveu”. É o caso desta pequena
história que tem as corridas de automóveis como figurante.
Confesso a Deus, Todo-Poderoso, e a Vós, irmãos, que pequei por palavras, gestos
e risadas contra o maior momento do automobilismo brasileiro e, com certeza, o
mais alto ponto de desenvolvimento de carros de corrida no Brasil. Refiro-me a
um sonho, um projeto ambicioso e viável que nós, brasileiros, dentre os quais me
incluo, impacientes e imediatistas enterramos com orgulho. O sonho começou na
temporada de 1974 de Fórmula 1, quando. Émerson Fittipaldi iria se tornar o mais
jovem bi-campeão mundial da história.
A
grande notícia foi o lançamento do Copersucar-Fittipaldi, o primeiro Fórmula 1
construído no Brasil. A partir daquele ano, o Brasil passava a integrar o seleto
clube de países construtores de Fórmula 1, composto por Inglaterra, Itália,
França e Alemanha. A visão inovadora de Wilson Fittipaldi Jr. encontrou na
Copersucar, uma cooperativa que comercializava a produção de mais de 50% do
açúcar do Brasil, o parceiro ideal para bancar o sonho, com recursos financeiros
suficientes e o projeto de fixar sua marca no exterior. No final do ano de 1974,
muitos jovens, gazetearam as aulas e, vestindo-se com os uniformes de seus
colégios, foram assistir a primeira volta do Fórmula 1 brasileiro em Interlagos.
Parecia inacreditável, mas era realidade. E mais : o carro era lindo!
Por
ser uma equipe nova, a Copersucar-Fittipaldi já se defrontava com dois
obstáculos : motores e pneus. A Cosworth destinava os seus melhores motores às
equipes grandes, como a Lótus e a Mclaren, ou para vitoriosas como a Tyrrel e a
Brabham. Desta forma, a equipe brasileira não receberia motores tão competitivos
como as demais. Quanto aos pneus, não existia a garantia concreta que a equipe
receberia os mesmos das grandes, apesar do fornecedor dizer o contrário. Mas,
não eram obstáculos grandes o suficiente para desânimo. Na fábrica, próxima ao
autódromo de Interlagos, imperava a vontade de se construir algo e o otimismo de
que estavam trilhando um caminho vitorioso.
Na
primeira corrida, na Argentina, o grande susto : Fogo! O carro incendiou-se e as
imagens mostram um Wilsinho desesperado, tentando salvar o seu sonho. Os
programas de humor e os apressados comentaristas esportivos não tardaram em
criar e divulgar apelidos desairosos à empreitada brasileira. O carro virara
motivo de descrença, de gozação. Aquele
seria um ano de
aprendizado e, portanto, um ano previsivelmente difícil. Nós, brasileiros, no
entanto, esperávamos bons resultados, que, lógico, não vinham. Surgiam as
piadas, as chacotas, amplamente apoiadas pela mídia.
Ao
final daquele ano, uma bomba: o campeão de 1972 e 1974 e vice campeão de 1971 e
1973, um piloto tido por todos como um dos maiores de todos os tempos, decide
emprestar seu prestígio e sua liderança à equipe brasileira. Émerson Fittipaldi
abria mão da possibilidade de mais um campeonato mundial (que acabou nas mãos de
um piloto de sua ex-equipe) para correr pela Copersucar. Foi difícil para os
torcedores brasileiros assimilarem o peso do gesto de nosso campeão. Não
conseguíamos entender que, com sua presença, a equipe poderia pleitear os
melhores motores, pneus e peças, desenvolvendo-se mais rapidamente.
A
Copersucar-Fittipaldi possuía uma parceira, para o desenvolvimento de
aerodinâmica, extremamente importante : a EMBRAER. Com isto, seria uma das
poucas (acho que, na época, apenas duas ou três) a utilizar-se de um túnel de
vento e a única a usar um em escala natural. Sem falar na ajuda nos projetos de
aerofólios e bicos.
Mas,
queríamos resultados, queríamos vitórias. As piadas agora atacavam também o
nosso campeão. Pior, criticávamos os irmãos, dizendo que eles estariam
participando de um esquema de desvio de dinheiro da cooperativa, para
enriquecerem-se. Estas suspeitas maldosas só fizeram aumentar, quando a
Copersucar passa a enfrentar problemas financeiros e seu presidente é acusado de
enormes falcatruas, fraudes etc.
Mesmo
lutando contra a falta de recursos financeiros, escassos após o naufrágio da
parceira, a equipe conseguiu apresentar alguns bons resultados nas pistas e
crescer, formando profissionais. Porém, com o descrédito por parte dos
brasileiros, tornava-se complicado, mesmo para um piloto da categoria de
Émerson, conseguir qualquer tipo de patrocínio, aqui ou no exterior. Que tipo de
empresa gostaria de ver sua marca associada a uma piada? Foi uma questão de
tempo para que a equipe, num longo processo terminal, decidisse finalizar seu
projeto e todos nós apoiamos esta idéia, esquecendo-nos de que Émerson
dificilmente retomaria sua carreira na Fórmula 1.
Anos
depois, sentado nas arquibancadas do autódromo do Rio, em Jacarepaguá,
presenciei a vitória de um Copersucar Vermelho, pilotado por Mansell, no GP
Brasil. A Ferrari “Bico de Pato” se utilizava do mesmo conceito aerodinâmico
tentado pela Copersucar , através do modelo “Concorde”, muitos anos antes. Em
matéria de aerodinâmica, era praticamente o mesmo carro, só a cor era diferente.
Lembrei-me, então, do primeiro modelo, aquele de 1974, muito bonito. O aerofólio
dianteiro passava sobre o bico, de maneira elegante e estética, porém com o
intuito de prover maior pressão aerodinâmica na frente do carro. Coisa
corriqueira e óbvia, hoje, mas inovadora há 33 anos. O motor, coberto por
carenagem, impensável naqueles tempos, é inquestionável nos carros atuais.
São
algumas rápidas lembranças, pois as histórias do Copersucar-Fittipaldi poderiam
preencher todo um volume, na enciclopédia do automobilismo brasileiro. É apenas
um desabafo e um “Mea Culpa” deste colunista, que promete voltar com mais
histórias sobre este ápice de nosso automobilismo.
Por
enquanto, só posso pedir aos irmãos Fittipaldi que perdoem minha impaciência e
minha ansiedade da juventude. Aproveito para finalizar esta longa coluna,
adaptando e parafraseando um poema de Cecília Meirelles, musicado por Chico
Buarque de Hollanda:
“Por aqui
passava um carro
e como o povo
se ria,
no entanto à
sua passagem,
tudo era como
alegria.”
Ele
vestia um carro branco número 10, lembrando outro mestre que se vestia de
branco, com o mesmo número às costas. Seu palco não era a grama, apesar de, vez
por outra, uma das rodas de seu carro tocasse gentilmente um desordenado tapete
verde sem grama, mas com mato. Desfilava seu talento e habilidade no asfalto, no
paralelepípedo, no concreto, na terra. Mário César de Camargo Filho, o Marinho,
possuía uma das tocadas mais suaves e precisas do automobilismo, além de muita
técnica e conhecimento de mecânica. Um craque, um verdadeiro camisa 10!
Conheci-o e
encontrei-o durante o evento Clássicos de Competição, realizado em Interlagos,
seu templo natural, e que já se tornou o nosso Festival de Goodwood. Finalmente
escrevo a coluna sobre o meu primeiro e, talvez, maior ídolo no automobilismo
nacional, mas só depois de conhece-lo pessoalmente e ter tomado coragem de falar
com ele, quarenta anos depois. A gentileza e carinho com que conversou comigo,
só ratificou a imagem de uma grande pessoa, honesta e cordial.
Quando se
tratavam das difíceis corridas de rua, nas cidades de Poços de Caldas,
Piracicaba, Araraquara, Petrópolis, Goiânia, Brasília, Fortaleza e tantas
outras, o lugar mais alto do podium tinha dono: Marinho. Para os demais, restava
o consolo de disputar quem chegaria mais perto do rei das cidades.
Sua
primeira corrida, pilotando um DKW-Vemag, foi em 1959, em Poços de Caldas, numa
equipe semi-oficial. As equipes de fábrica ainda não haviam se formado. Marinho,
conhecido dos italianos que pilotavam as Alfa-Romeo, ligou o carrinho e logo
saiu aquela fumaceira característica do motor 2 tempos. Ao mesmo tempo, quando
comparado com o das poderosas Alfas, ficava tímido, naquele pó-pó-pó.
Os
italianos olharam com pena e escárnio para Marinho e se puseram a rir. Foi uma
das poucas vezes que ele correu com raiva. Ganhou a corrida com pó-pó-pó e tudo.
Lembrou aqui o outro 10 que se motivava quando a torcida adversária mexia com
ele. A mesma fibra, a mesma categoria. Já começava a aparecer a famosa valentia,
garra e talento que seria a marca registrada da equipe DKW-Vemag, ao longo dos
poucos e brilhantes anos de sua existência.
Em
1961, já formando uma das mais perfeitas duplas já vistas, com Bird Clemente, na
edição da Mil Milhas Brasileiras daquele ano, o show foi completo. Perdendo
apenas para os JK, as bichos papões da época e chegando à frente das temíveis e
potentes carreteiras, foram sondados para disputarem o Rali de Monte Carlo,
pilotando carros Auto Union, a campeã mundial de Rali, à época.
A
burocracia e autoritarismo do General Silvio Santa Rosa, presidente da
Confederação, impediram a realização deste sonho por parte de nosso piloto.
Segundo o General, se eles corressem lá, nunca mais poderiam pilotar por aqui.
Ambos preferiram ficar.
No
ano seguinte, seu principal adversário, transferido para a equipe Willys, seria
seu grande companheiro, Bird Clemente. Apesar de toda rivalidade entre Willys e
DKW, continuam amigos até hoje e, naquele tempo, de camaradagem, compartilhavam
os jantares nos boxes e as mordomias da equipe de Luís Grecco.
Perguntado sobre a possível dicotomia entre
rivalidade, amizade e camaradagem, e como isto se resolvia nas pistas,
respondeu, sereno :
- “Com muito
respeito. Disputávamos as corridas curva a curva, mas, em meus dez anos como
piloto, jamais fui tocado ou toquei em algum adversário! Isto seria um crime e
uma forma antiesportiva de disputa”.
Mais
adiante, contando das tecnologias desenvolvidas pelo departamento de competições
da Vemag, como, por exemplo, um óleo de freio que durava mais do que os outros e
ajudava a poupar os freios, contou que emprestou o tal segredo a diversos
rivais, ajudando suas equipes. Perguntado se isto não lhe tiraria vantagem na
corrida, respondeu :
-
“Gostava de ganhar na pista, no braço, na estratégia, na técnica, na regulagem
de meu carro. Seria muito sem graça vencer porque o óleo de freio era melhor. O
gostoso era vencer porque você havia sido melhor, mais completo. Aí valia...”
Outros tempos, outras pessoas, outra formação. Este era o 10. Tal qual o outro
também de branco e com o número 10 às costas, um exemplo de talento e de
esportista.
Esta
história poderia ter sido a minha, a sua e a de tantos outros amantes dos carros
de corridas, mas é a história de um menino simples, sem nome, que tive o
privilégio de viver. Pude viver os dois lados da história.
Era
muito comum, e acredito que ainda seja, nas provas de Rali, termos um
deslocamento ou um neutralizado em pequenas vilas, com tempo suficiente para
descansarmos e darmos uma repassada na planilha. Também servia para nos
alimentarmos, muitas vezes só de miolo de pão, no caso dos navegadores, para
reduzir ou eliminar o enjôo que a poeira e a leitura causavam.
Mas, à nossa
chegada, as vilas se transformavam. As pessoas saíam às ruas ou apareciam nas
janelas para ver aqueles carros de corrida e seus pilotos. Sabíamos que
modificávamos a pacata rotina destes locais. O que eu não sabia, ou não havia
experimentado, era o sentimento do impacto que causávamos.
Nosso
carro, como vocês já sabem, não tinha nada demais, nem os pára-choques nós
tirávamos, afinal era um carro de rua, normal, que teria de voltar à loja o mais
intacto possível. A única modificação era no escapamento, que trocávamos por um
direto. Na parte externa, além do número e dos adesivos dos patrocinadores da
prova, meu piloto e eu colávamos adesivos que eu trazia da Europa, de
patrocinadores dos Ralis do Campeonato Mundial. E eu tinha uma coleção daqueles
adesivos grandões da Tag-Heuer, da Martini Racing, Ferrodo e tantas outras
marcas. Os pilotos graduados achavam graça da nossa decoração, mas nós
adorávamos. Nos sentíamos em Monte Carlo.
Numa destas ocasiões, numa prova do Campeonato Paulista de Rali,
paramos num vilarejo, próximo à hora do almoço. Tínhamos voado no neutralizado,
pois estávamos cansados e queríamos uma parada mais longa, para descanso.
Chegamos ao vilarejo praticamente junto com os carros de ponta, das categorias
acima da nossa. Encostamos nosso carro e, após comer uns dois miolos de pão e um
copo de leite, me recostei no banco do carro, para descansar um pouco e ver se o
enjôo passava.
Um
menino, pés descalços e calças curtas se aproxima de nosso carro e cutuca meu
capacete :
- “Moço, esse
carro é de corrida?” pergunta, com os olhos brilhando.
- “É sim”,
respondo tentando não me mexer demais.
- “E
corre muito? Faz um barulhão.”
- “Corre, corre
bastante..”
- “Mais que
aqueles ali?” perguntava, apontando para os carros de fábrica.
- “Às
vezes”, respondi mentindo...
-
“Posso entrar e ver por dentro?
- “Já não tá
vendo aí da janela?”
- “Ah, mas eu
queria ver por dentro!”
- “Ta
bom”. O sorriso do moleque, daqueles que começam no brilho dos olhos e se
espalham por todo o rosto fez até passar o enjôo e me levaram a uma outra
dimensão que eu não conhecia.
-
“Mãe!!! O moço deixou eu entrar no carro dele, Posso?” gritava radiante o
garoto.
O
menino entrou no lugar do piloto, atrás do volante e, fez umas trezentas
perguntas, falando como uma metralhadora e, para completar, ligamos o motor, com
o escapamento aberto para ele acelerar.
Foi
indescritível o que se passou por aquele rosto. Poucas vezes vi coisa igual, a
não ser com meus filhos abrindo os presentes longamente desejados ao pé da
árvore, na manhã de Natal.
E me
lembrei de mim, quando ouvi o ronco e vi os carros de corrida em Interlagos,
pela primeira vez. Sensação única, sem descrição ou comentários... uma alegria
só. Ainda guardo em minha memória aquele rosto, aquela expressão, as pernas
finas e curtas alcançando o acelerador, as mãos rodando o volante, e o riso
frouxo, cada vez que acelerava. A vida é feita destas memórias...
O “RABO QUENTE”
No
final dos anos 50 e começo dos anos 60, um carrinho, muito estranho, fazia um
enorme sucesso nas pistas. Era o Renault “Rabo Quente”, como ficou conhecido por
aqui, no Brasil. Este carro, sim, lembrava muito um sapo.
O
carrinho tinha quatro portas, medindo 3,6 metros de comprimento, 1,43 metros de
largura e com altura de 1,47 metros e pesava só 600 kg. 70% do peso era
concentrado na traseira, onde ficava o motor de 4 cilindros em linha de 17 cv
(na versão de competição, chegava a impressionantes 32 cv!) e 747 cc,
refrigerado a água, câmbio de três marchas, com a primeira não sincronizada.
Os
preparadores de motores da época conseguiam elevar a sua potência, com mágica e
criatividade, características da época. O bloco era o mesmo que iria equipar os
Dauphine e os Gordini, que obtinham bons resultados nas pistas e nos campeonatos
brasileiros. Óbvio que não era páreo para as carreteiras e os carros “grandes”,
como os Alfa, os Abarth, os Simca, etc.
Mas
dava um trabalho danado! Devido à sua distância entre eixos e o seu tamanho,
possuíam uma incrível estabilidade, permitindo andar nas curvas, da mesma
maneira que que nas retas. Esse era o diferencial. Um carrinho ágil, que tirava
grande vantagem dos maiores na Ferradura (que curva linda, que não existe
mais!), no Sargento, no Laranja, no Pinheirinho, no Bico de Pato e no Mergulho.
Porém, após a curva do Café, na subida e reta dos boxes, curvas 1 & 2, retão e
curva 3, era pé embaixo, com o motorzinho dando tudo de si, mas o carrinho
perdia terreno para os mais musculosos. O esforço excessivo, por quase um minuto
seguido em máxima rotação, provocava aquecimento do motor, principalmente após
algumas voltas. Na verdade, dentro do carro, o calor era enorme.
Em
algumas ocasiões o calor causava um princípio de incêndio no Renault, que
soltava as chamas pela traseira. Por todos estes motivos, o carrinho ganhou o
apelido de “rabo quente”. Mas também porque aquele motorzinho empurrava o
carrinho valente que, vira e mexe, aprontava alguma para os grandes.
Pelo
tamanho e valentia, o “Rabo Quente” possuía sempre uma torcida entusiasmada. A
maioria de nossos ídolos do passado correu, pelo menos uma vez, com um “rabo
quente”!
O TANGO DE 13 DE JANEIRO
Não
era uma sexta-feira, mas era dia 13, 13 de Janeiro de 1974. A temporada de
Fórmula 1 daquele ano iria começar na Argentina. O primeiro choque do petróleo
era uma realidade dura e os analistas previam o fim da Fórmula 1, naquela
temporada mesmo, em razão da escalada absurda do preço do barril de petróleo a
quase 40 dólares.
No
Brasil, nosso presidente Geisel achou que o preço do petróleo não seria
problema, era apenas uma crise passageira e, além de decidir subsidiar o preço
dos derivados para não gerar inflação, também decidiu investir na Usina Nuclear
de Angra, em Itaipu e Tucuruí, além de bancar o Metrô do Rio. A inflação e
dívida externa que eclodiram anos depois tem suas bases nestas decisões. Mas,
éramos o país do futuro, a 8ª ou 9ª economia, à frente de Espanha, Portugal e
muitas outras e disputando posição com a Itália. Ame-o ou Deixe-o. Ninguém
segurava o Brasil!
As
mudanças de equipe, em relação ao ano anterior eram várias, e o campeonato
prometia. A Tyrrell havia perdido François Cevert e seu campeão, Jackie Stewart,
de uma só vez. A Mclaren, agora com patrocínio da Marlboro, roubara a estrela
Émerson Fittipaldi da Lótus, pelo salário absurdo e mercenário de 1 milhão de
dólares por ano, para ser companheiro de Dennis Hulme. A Lótus, com Peterson,
tirou Jacky Ickx da Ferrari, que apostou na dupla da BRM, Regazzoni e Lauda.
Jody Scheckter e Depailler na Tyrrell. Na Surtees, Jochen Mass e Pace e na BRM
Henri Pescarolo e Jean-Pierre Beltoise. A Brabham ia de Reutemann, mas sem
Wilsinho, que estava construindo o sonho do F1 brasileiro.
Naquele ano, as equipes estavam utilizando grandes tomadas de ar, exageradas até
para o desenho dos carros, aproveitando para criarem um espécie compressores
naturais para os motores, dando-lhes mais potência. Ficaram logo apelidadas de
“Chaminés”.
O que
ninguém poderia imaginar era a dramaticidade daquela corrida.
Peterson na pole, com Regazzoni a seu lado, Émerson em terceiro, com Revson em
quarto, Hunt, Reutemann em sexto, Ickx e Lauda na quarta fila. Mike Hailwood e
Dennis Hulme completavam os 10 melhores classificados.
Peterson saiu na frente e, logo na primeira volta um acidente envolvendo Revson
e Hailwood mudaria o panorama da corrida. Scheckter foi para a grama. Hunt,
depois de excepcional largada, roda quando está em segundo lugar e Émerson pára
nos boxes. A Lótus preta de Peterson começa a apresentar problemas de freio e,
na terceira volta Reutemann assume a ponta. Ickx e Lauda vem voando lá de trás e
Hulme cerebralmente segue num pacífico segundo lugar.
O
cenário político e social dos países da América do Sul, naquele início de década
estava conturbado. Ditaduras em quase todos os países, denúncias de tortura,
censura, mas a Argentina tinha Juan Domingo Perón, ditador do popular do
passado, ainda carismático, apesar da idade avançada, para tentar disfarçar o
terrível período que se impunha.
A
festa aumenta no autódromo, quando todos vêem a Lótus preta e dourada de Ickx se
arrastar até os boxes, com um pneu furado. Nada parecia tirar a vitória de
Reutemann. A cada volta consolidava mais ainda sua liderança. O público nas
arquibancadas cantava feliz.
O
Presidente, vendo toda aquela empolgação pela tevê, decidiu aproveitar o momento
para uma boa propaganda política e resolveu deixar o palácio para entregar o
troféu pessoalmente ao vencedor. Com aquela turba enlouquecida, certamente
ganharia alguns pontos e por, pelo menos, uma semana não teria perturbações
sociais ou manifestações indesejáveis.
Enquanto isso, com as ondulações da pista, a carenagem da enorme tomada de ar
começou a se soltar, inclinando-se cada vez mais. Isto prejudicava o desempenho
do motor, tirando-lhe eficiência e fazendo-o consumir muito mais combustível. A
corrida já avançava para suas voltas finais com um ingrediente de dramaticidade,
digno de um tango.
A
torcida começa a ver, volta após volta, os adversários se aproximando mais e
mais de Reutemann e que seu carro já não tem mais o mesmo rendimento. Pior, a
cada nova volta a tomada de ar solta-se mais. A dúvida: parar nos boxes,
consertar aquilo e chegar bem colocado, ou tentar levar o carro daquele jeito?
Puro drama. Neste ínterim, o mandatário, a caminha, tinha a certeza que iria
coroar seu pupilo.
Presidente Juan Domingo Perón chegou há na penúltima volta, no momento exato de
ver a Brabham de Carlos Reutemann parando nos boxes para consertar a chaminé.
Mais do que rapidamente, o ditador retirou-se das tribunas de onde acabara de
chegar, de forma a não laurear nenhum piloto de outra nacionalidade. Esta
pequena deselegância esportiva chamou a atenção da mídia, mais do que ele
poderia imaginar.
A
vitória foi de Hulme, com o jovem Lauda em segundo e Regazzoni em terceiro. Para
o jovem engenheiro Luca di Montezemolo, recém nomeado para dirigir a equipe
italiana, uma bela surpresa.
Para
os argentinos, uma dupla decepção, merecedora de um tango, em homenagem. O tango
de 13 de Janeiro.
CONFIRMAÇÃO DO DNA
Meu
pai faria 87 anos. Peço licença aos leitores para contar cenas pitorescas desse
homem, responsável por minha paixão pelas corridas.
Aos
16 entrava para a Faculdade de Direito do Largo São Francisco e recebia a carta
do Prefeito, autorizando-o a dirigir. É por essa razão que, em São Paulo,
chamamos a habilitação de Carta e não de Carteira. O prefeito da cidade, através
de uma carta ao departamento de trânsito, autorizava as pessoas a dirigirem
veículos a motor. Tempos depois, chefe de família numerosa e motorista há muitos
anos, foi obrigado a realizar todos os exames de habilitação, para receber sua
carteira e, assim, validar sua “carta”.
Seu
sonho, por gostar muito de automóveis, sempre fora ser engenheiro mecânico,
coisa que meu avô proibiu. Gente “de bem” deveria ser advogado, Juiz ou
banqueiro. Porém, meu pai nunca perdeu seu interesse por carros. A saída que
encontrou foi comprar livros e revistas e ler o máximo que pode sobre
automóveis, além de acompanhar tudo sobre corridas. Nasci no mesmo ano do DKW no
Brasil e quando ele percebeu que eu gostava de carros, alimentou minha
curiosidade com revistas, livros e histórias.
Para
ele, que vira e seguira a F1 desde o princípio, os pilotos italianos eram os
melhores, baseando-se nos feitos e vitórias de Ascari e Nuvolari. Sei de algumas
histórias desses dois quase de cor, de tanto que ele me contava. Não é à toa,
que quando montou uma equipe DKW para correr em Interlagos, contratou um piloto
italiano.
Num
Salão do Automóvel, que ele foi comigo, estávamos no estande de uma montadora
(juro que não me lembro qual) e estavam expostos 3 motores “transparentes”
funcionando : Um 4 cilindros em linha, um 6 cilindros em linha e um V8. Ele
começou a me explicar, com aquele jeito dele, calmo, paciente e sem ser muito
prolixo, como funcionavam e quais as semelhanças, diferenças, vantagens e
desvantagens de cada um. Quando terminou, havia uma multidão atrás de nós,
ansiosa para fazer perguntas, querendo saber mais.
Aquilo virou uma aula de mais de uma hora, até que ele, muito timidamente, pediu
desculpas a todos, dizendo que não era engenheiro e que precisava continuar
visitando a Feira com seu filho.
Na
mesma época, acredito, eu o estava atormentando para me comprar uma moto, que
ele não faria de forma alguma. Qualquer momento em que eu conseguia sua atenção,
lá vinha eu com a mesma conversa e argumentação de sempre! Até que, num Domingo
calmo, após o almoço ele estava lendo seu jornal no sofá e eu, no sofá de
frente, comecei a ladainha. Ele, tranqüilo, respondendo com carinho a minha
chateação. Pensei num argumento brilhante e soltei :
-
“Pai, eu JURO que vou andar sempre de capacete!”
Ele baixou o
jornal e falou, para minha exultação :
-
“Está bem.” Quando eu já pulava do sofá para lhe dar um enorme beijo, ele
completou : “Eu compro o capacete e você pode ficar andando por onde quiser!”.
Foi a
última vez que falei no assunto com ele. E ainda tive de vê-lo comprar para
minha mãe uma motocicleta pequena, que ela usou até os setenta anos de idade.
Ela usava para fazer compras perto de casa. Como as francesas, argumentava.
Passei por pesadelo semelhante há pouco, até que meu filho tirou sua carteira de
habilitação e pode pegar o carro. É um inferno! À época, não me dava conta
disso. Usei o mesmo estratagema com meu filho. Funcionou!
Herdei todos os seus livros de automóveis (os que sobraram, pois minha mãe, doou
livros e mais livros à bibliotecas de todo o país, por absoluta falta de espaço
para tantos livros em casa) e, em alguns, vejo umas anotações à lápis nos cantos
das páginas.
Minha
paixão pelo esporte e pela esportividade limpa e simples, confirma o DNA.
Obrigado, meu pai!
AMARELO 18
Não é
uma nova modalidade de roleta ou jogo de cassino. É uma recordação agradável e,
ao mesmo tempo, intimidante. Escrever sobre este mito pode ser arriscado, pois
nunca será o bastante, nem se terá dito tudo o que ele merece.
Logo após a
estréia da primeira coluna, tive o prazer de receber dezenas de comentários,
incentivos, críticas e sugestões. Uma delas me pedia para fazer uma coluna sobre
um dos maiores ídolos de nossa corridas : Camilo Christófaro.
Sinto-me um pouco desconfortável e tímido para falar dele, tão grande o respeito
que desenvolvi por este piloto. Aqui vai uma primeira tentativa, pois a ele
caberia um livro todo, uma vez que ele representa, sózinho, um capítulo inteiro
do automobilismo brasileiro.
Uma
verdadeira lenda, com sua carreteira amarela, número 18. Vencedor de várias Mil
Milhas brasileiras, não sei quantas vezes campeão, o velho Lobo, como era
chamado (muito antes de colocarem o mesmo apelido no Zagallo), era o mais temido
adversário, especialmente nas provas de longa duração. Experiência, um carro
resistente e potente o transformavam em favorito inicial a cada nova edição da
prova. Não sei quantas corridas longas assisti, sabendo o final : vitória da
carreteira 18.
O
interessante sobre carreteiras é que são (ainda) mais difundidas na Argentina do
que aqui no Brasil. Aqui, gostávamos e gostamos de criar protótipos. Lá, eles
desenvolveram esta técnica e permanecem fazendo.
A
carreteita é produzida a partir de um chassis robusto, sobre o qual vai se
montando um automóvel livremente, como um quebra-cabeças, com peças das mais
variadas origens. A carreteira 18 era montada sobre um chassis de caminhão, com
um motor Corvette de 8 cilindros, câmbio Ferrari e suspensão montada pelos
próprios criadores. A junção de tudo isto poderia resultar num carro vencedor,
como o de Camilo, ou pode gerar umas anomalias, como a maioria das outras
tentativas feitas por aqui. Na Argentina ainda existe um campeonato de
carreteiras. Uma loucura, com uns carros desengonçados correndo!
Mas,
Camilo Christófaro, com seus parceiros Catarino Andreatta e Eduardo Celidônio,
juntos ou alternados, eram os principais adversários de quem fosse,
especialmente nas Mil Milhas. Vinham Porsches, Abarths, Renaults, BMWs, Alfas
etc, mas, no pelotão da frente lá estava a carreteira 18, amarela, pronta para
assumir a liderança, ou liderando.
Naqueles tempos
em que carros importados ou carros especiais de corridas só eram vistos através
das revistas especializadas, sonhávamos em vê-los em ação e, se possível
vencendo. A nos contrariar, lá estava Camilo e sua carreteira. De uma certa
forma, ele frustrava nossas expectativas, mas não deixava de conquistar nosso
respeito e admiração.
Antigamente, não havia uma regra clara para a numeração dos carros, numa
corrida. Normalmente era seguida a ordem de inscrição. Mas haviam alguns números
intocáveis : o 22 da Willys (Gordini, Interlagos ou Bino), quase sempre guiado
por Wilsinho Fittipaldi, o 7 e o 77, geralmente de Émerson, o 2, da equipe Dacon
– Porsche, com seus Kharman-Ghias ou VW de motor Porsche, cujo maior piloto era
Pace, o Mocco, o 10 da Vemag (com DKW, Malzoni ou Puma), de Marinho e o 18 da
carreteira amarela de Camilo Christófaro. Este último era imutável. Entrava e
saía ano, podíamos contar com a carreteira 18.
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OS ÍDOLOS E O
MITO
A Fórmula 1 voltava a seu berço, no
Brasil, Interlagos. Muita festa. Eu, para não ficar distante dela, mesmo morando
no Rio, na Barra da Tijuca, tinha de estar presente. Desta vez, como turista em
minha cidade, e com uma credencial de Paddock na mão, iria curtir a volta do GP
Brasil à São Paulo. Senna já era ídolo dos brasileiros, as atenções todas
voltadas para ele, pois ainda não havia vencido nenhum GP por aqui, e a festa
era grande.
O principal rival, agora corria pela
Ferrari. Um dilema para mim. Como torcer para o principal adversário de nosso
ídolo? E, pior : eu não gostava de Prost, apesar de todas as suas conquistas, o
considerava um piloto de menor expressão. Porém, todas essas dúvidas começaram a
se dissipar quando estava me aproximando do templo maior do automobilismo no
Brasil. Como é bom voltar para casa! E que festa!
Convidei um dos meus irmãos, aquele
que, quando eu era criança (caçula e temporão), me levava a todos os jogos de
futebol e a todas as corridas. É oito anos mais velho do que eu e, para sua
tristeza, quando começou a me levar ao futebol para torcer para o seu São Paulo,
o Santos já tinha Pelé. Eu, assistindo aos jogos a seu lado, constrangido
escolhi torcer para quem sempre ganhava.
Logo depois do warm-up da manhã, as
celebridades começavam a chegar. Para distrair meu irmão, que não parava de
comer do excelente bufê que nos serviam, sugeri um passeio pelos boxes, ver os
carros de perto. Na volta, quando os portões de visitação se fecharam, estávamos
entrando para o Paddock, quando começou um alvoroço. Meu irmão, próximo de um
amontoado de pessoas que já estava se formando, gritou : “Joga o boné e uma
caneta, é o Pelé !” Eu, que já estava no alto da escada, obedeci-lhe e, quase me
atirei dali mesmo, pois todos que estavam na escada, viraram-se e pararam,
bloqueando a passagem de quem quer que fosse.
Foi aí que presenciei o mais
inusitado : os pilotos, atração maior daquele espetáculo e ídolos da maioria
ali, começaram a escalar o alambrado que dividia os boxes da entrada do Paddock,
subindo em pneus e, literalmente, pulando a cerca para conseguir um autógrafo do
maior atleta do século XX. Foi um acontecimento : exceto as duas estrelas da
corrida, todos demais pilotos pularam o alambrado para falar com ele, Pelé.
Na corrida, após liderar quase todo o
tempo, Senna tentou passar o retardatário Nakajima no Bico de Pato. Bateu. Prost
ganhou mais uma e com a Ferrari. Meu irmão comeu tanto durante a manhã, que
dormia o sono dos anjos durante a corrida.
E Pelé, mais uma vez, provara que os
outros podem ser ídolos, mas ele é mito. O ídolo dos ídolos.
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O
HERÓI
Um dos maiores heróis do automobilismo em todos
os tempos, talvez o maior, pelo menos na minha opinião, está vivo, apesar de ter
sua morte quase anunciada há trinta anos. Menos de sessenta dias após permanecer
por mais de uma semana em coma e com a pálpebra de um de seus olhos parcialmente
lhe cobrindo a vista, e com a cabeça e o rosto todo deformados pelo fogo que
quase lhe tirou a vida, ele estava pronto para disputar o título, na última
corrida da temporada, debaixo de um dos maiores aguaceiros que já vi.
Em razão do perigo que a pista trazia, pilotos
mais experientes recusaram-se a largar, como o nosso Émerson Fittipaldi e Mário
Andretti, mas a equipe que ele defendia e a FOCA, obrigaram-no a participar.
Após a largada, cômica pela quantidade de água na pista, ele deu uma volta,
encostou seu carro nos boxes e declarou não ter condições psicológicas para
prosseguir.
Mesmo assim, ele perdeu o campeonato nas últimas
voltas e apenas por um ponto. A imprensa italiana e a direção da Ferrari
acusaram-no de covarde, de traidor. No ano seguinte, em meio a uma série de
cirurgias corretivas ele daria à escuderia italiana seu segundo título em quatro
anos, completados com dois vice-campeonatos, indo para outra equipe. Niki Lauda
foi um dos maiores pilotos de todos os tempos e, com certeza, um dos mais
técnicos que vi correr.
A Ferrari apostou, para a temporada de 1974, em
dois jovens : a equipe passaria a ser dirigida por um rapaz, com seus vinte e
pouquíssimos anos, recém-saído da escola de engenharia – Luca di Montezemolo – e
num piloto, também muito jovem e rápido que vinha se destacando – Andréas
Nicolaus Lauda, ou Niki Lauda. Um projeto totalmente novo, com distância entre
eixos mais curta, câmbio transversal e motor 12 cilindros boxer eram as apostas
técnicas para terminar com o predomínio dos motores Cosworth e das escuderias
inglesas na Fórmula 1.
A inexperiência, o excesso de arrojo, em alguns
casos, e um adversário que sabia induzir o rival ao erro e conservava seu carro,
numa época de muitas quebras, impediram que o campeonato viesse logo no primeiro
ano. O adversário era o campeão Émerson Fittipaldi, outro piloto de extrema
técnica, veloz e que merecia ter recebido o apelido de “O Professor”.
Mas, em 1975, o domínio de Lauda e da Ferrari foi
avassalador. A ponto de terem recebido o apelido de “o Binômio perfeito” do
automobilismo. Niki aprendera e absorvera a lição do “mestre” Fittipaldi : sem
perder a velocidade, traduziu todo seu arrojo em técnica, desenvolvendo-a até
quase a perfeição. Desenvolveu uma compreensão da máquina como poucos,
tornando-se também um dos mais perfeitos acertadores de carros de todos os
tempos. E sua técnica impressionava.
Lembro-me de um teste de pneus, ao final do ano,
em Interlagos, quando consegui ficar do lado de dentro, entre a Curva 1 e 2, no
antigo traçado, com um fotógrafo ou repórter inglês observando os treinos.
Chegava a irritar a tranqüilidade e calma com que Lauda tomava e fazia aquelas
curvas, como se estivesse em um carro de rua, com direção hidráulica (na época
não havia) e passeando.
Em todas as voltas fazia as curvas da mesma
maneira, sem esforço, passando nos mesmos pontos, porém sempre muito rápido. O
inglês me cutucava e dizia : “Dá raiva! Parece fácil e ele faz sempre igual, do
mesmo jeito, como se fosse simples! Se o pneu soltasse tinta ele pintaria duas
faixas, da largura dos pneus, perfeitas e paralelas, tão bom ele é!”
Impressionante!
Não fosse o acidente em Nurburgring em 1976, onde
quase morreu, e ele teria sido tri-campeão seguido com a Ferrari. Um binômio
perfeito. Até a vinda de Schumacher, mesmo com o campeonato de 1979 e
Villeneuve, o maior período de predomínio consecutivo da escuderia italiana na
história da Fórmula 1.
E, mesmo assim, àquela época, ele foi chamado de
covarde.
Depois de correr um tempo pela Brabham, tendo
aconselhado um outro jovem futuro campeão, voltou a conquistar um título, desta
vez pela MacLaren e por meio ponto, iniciando o maior e melhor tempo da equipe
inglesa.
Este sim, um verdadeiro herói vivo das corridas
e, certamente, um dos maiores pilotos de todos os tempos. Em técnica, com
certeza.
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MIL MILHAS – OUTROS
TEMPOS
A
importância das “Mil Milhas Brasileiras” era tão grande e tão mítica que muitas
vezes, interrompia as minhas férias escolares só para vir e assistir à corrida.
Lógico, haviam outras atrações, como acamparmos por todo um final de semana,
curtindo aquela sensação de liberdade, longe de casa, dos pais e,
principalmente, ficarmos reunidos por uma noite e dois dias inteiros,
conversando sobre carros, motores, desenhos, preferências e.... política.
Sentados nos gramados que ladeavam o antigo traçado de Interlagos, formávamos um
grande fórum de discussão de idéias e teses, a maioria sobre carros e corridas,
mas muitas sobre política. Era uma das maneiras de se burlar o AI-5, que proibia
a aglomeração e reunião de jovens. A polícia, com amplos poderes, era muito
temida e nossa principal preocupação.
Numa
das edições das Mil Milhas, trouxemos da fazenda, onde estávamos passando as
férias escolares, o mais novo “brinquedo”: um rádio-comunicador
(“walkie-talkie”) extremamente poderoso, com um enorme raio de ação, igual aos
modelos portáteis utilizados na Guerra do Vietnã, que havia sido recém-comprado
para auxiliar na administração das plantações. Com eles, poderíamos circular
pelo autódromo, nos comunicando e encontrando os melhores ou os mais diferentes
pontos para assistirmos as ultrapassagens, os acidentes etc. Eram melhores do
que os da própria polícia!
Descobrimos que podíamos nos conectar, sem problemas, com os rádios do
policiamento do autódromo, inclusive interferindo, mandando mensagens, etc. Foi
a nossa diversão por um bom tempo, até que nos encontraram. No meio da
madrugada, fomos surpreendidos por uma movimentação e sombras do lado de fora de
nossa barraca. Não deu outra ... Era a “dura”!
Um
bando de policiais nos tirou da barraca, confiscou nossos rádios (que não eram
nossos, eram da fazenda!!!) e nos colocou no “chiqueirinho” de uma Veraneio
(lembram-se?) o resto da madrugada e uma parte da manhã. Foi um fim de noite de
ameaças, algumas “borrachadas” nas costas e, no final, fomos libertados com
nossos rádios. Essa era nossa maior preocupação : o que dizer quando voltássemos
à fazenda? Além de presos, sem os rádios? Mais castigo para nossas férias.
No
momento do acontecido, Camilo Christófaro, com sua carreteira 18 e toda sua
experiência, liderava, me deixando um pouco desconfortável, pois queria ver os
novos protótipos e os carros importados liderando. Aquela carreteira já vencera
muitas corridas. Quando fomos libertados o líder era outro, que acabou vencendo
a corrida. Já não me lembro mais, pois o que marcou aquela corrida foi o susto
de uma brincadeira inocente.
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ÁGUA !!!!!
Nos primeiros anos da Fórmula 1 no Brasil,
Interlagos era o palco brasileiro do circo. Mantendo as tradições do autódromo,
firmemente calcada nos eventos de longa duração, e as tendências da época,
acampar nos finais de semana de uma corrida não era apenas uma opção para se
obter bons lugares, era parte do programa.
Acampamentos divertidos, com famílias e fãs de
corridas que se confraternizavam em duas noites e três dias de paz, amor e muito
ronco de motor. A minha família, por exemplo, viria da fazenda, logo cedo, no
Domingo para assistirmos a prova juntos. Primos e Primas, mãe, tia e irmãos,
todos estaríamos lá. Vim antes, como bom fanático, e teria a responsabilidade de
guardar os lugares na arquibancada.
Acontecia de tudo, mas dentro
de uma harmonia gostosa. As pessoas compartilhavam opiniões, conversas, comidas,
roupas e até lugares nas barracas, caso fosse necessário. A organização deixava
os alto-falantes ligados, transmitindo notícias e músicas de alguma rádio,
geralmente a rádio que iria transmitir a corrida. E, por incrível que possa
parecer, o tempo passava rápido e poucas ocorrências eram registradas pela
Polícia.
A própria torcida controlava o comportamento dos
espectadores e, apesar do grande número de pessoas acampadas nas arquibancadas
(hoje A, B e M), em toda a extensão das curvas 1 e 2, no barranco do retão e,
poucos, lá nos lagos, a quantidade de sujeira que ia para a pista, de noite, era
pequena. De qualquer forma, para a garantir a segurança dos pilotos, logo pela
manhã os caminhões do Corpo de Bombeiros e da Prefeitura lavavam a pista,
ajudados pelos garis que varriam com seus vassourões. O GP Brasil de F-1
acontecia em pleno verão, atraindo fãs de todos os estados brasileiros,
especialmente do Sul.
Não me lembro se foi na primeira corrida válida
para o Campeonato Mundial, em 1972, ou na segunda, em 1973, que ocorreu um fato
incrível para a época, e que foi manchete em todos os jornais do dia seguinte,
com o mesmo título desta coluna.
Durante a noite, de Sábado para Domingo, choveu.
E choveu forte, das 10 da noite até as 4 da manhã. Aquela foi uma noite dura de
agüentar, pois, acostumado com nosso verão de noites lindas, eu não havia levado
barraca, só o saco de dormir. Vários espectadores me ofereceram um lugar em suas
barracas, mas eu, acreditando que era só uma rápida chuva de verão, recusei.
Resultado : experimentei a vida de eqüino e “dormi” em pé, com a chuva
escorrendo por todo o corpo. O saco de dormir, este sim ficara protegido, dentro
de alguma barraca ou de um carro.
A arquibancada só começou a secar quando surgiram
os primeiros raios de Sol. E que Sol! Com o ar totalmente limpo, depois daquela
chuvarada, um céu absolutamente sem nuvens, o Sol pode brilhar com uma
intensidade e calor, dignos do deserto
Quando tentávamos nos animar e esquecer um pouco
aquele calor, um gaiato gritou : “Faltam apenas 6 horas e 55 minutos para a
largada! Vamos comemorar!” Este era o espírito da torcida da época.
O Sol parecia querer participar desta alegria
toda e brilhava ainda mais intenso, mais forte. A coisa foi ficando feia, muito
feia. Poucas vezes na vida me recordo de ter passado, literalmente, um sufoco
daqueles. Nenhuma brisa, nem para amenizar, e o Sol queimando, firme e forte.
Quando os caminhões dos bombeiros e da Prefeitura
apareceram na reta limpando a pista, com aquele jato de água enorme, a
arquibancada começou a gritar, em uníssono : “Água, Água!” E, após insistentes
pedidos, eles voltaram as mangueiras para nós, ofereceram um banho refrescante a
todos e se tornaram nossos heróis. O banho se repetiria mais uma ou duas vezes
naquela manhã, seguindo orientação médica do autódromo. Apesar de ter dormido em
pé e de ter torrado sob o sol, aquela espera pela corrida valeu pela alegria e
simpatia dos torcedores e pelo banho. Água!
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A
LENDA DA NEBLINA
John Ford, grande
cineasta norte-americano, dizia que quando a lenda supera a realidade,
imprima-se a lenda. Muitas de minhas histórias baseiam-se mais nas lendas do que
nos fatos. Lendas fazem parte do imaginário e dos tempos românticos do
automobilismo e são importantes para o interesse do público.
Falo do grande Bird
Clemente e, antecipadamente, peço desculpas a ele, caso esteja incorrendo em
alguma inverdade. Porém, é a lenda e, portanto, estou publicando-a.
Bird Clemente era o
piloto mais rápido durante as noites e madrugadas, nas provas de longa duração,
como as Mil Milhas, principalmente quando caía a tradicional neblina. A razão
para isto residia no fato do grande piloto ser completamente daltônico. Nunca
soube se este fato era realmente verídico ou se era uma história inventada. A
verdade, porém, estava em sua velocidade, sob circunstâncias desfavoráveis,
superior a dos concorrentes.
Daltônicos completos
enxergam tudo em tons de cinza e foram largamente utilizados durante a IIa.
Guerra mundial, em funções de reconhecimento, sendo capazes de distinguir as
camuflagens e apontar a localização de alvos. Para os mais antigos, seria como
voltar a assistir televisão em preto e branco, quando conseguíamos distinguir
diferentes árvores nos matos dos filmes de caubói.
Contam que Bird Clemente
nascera com este dom. Assim, quando baixava a neblina, ele era capaz de enxergar
melhor, distinguindo os diferentes tons de cinza e, portanto, andar mais rápido.
E lá se ia o veloz, talentoso e intrépido piloto. Os outros, obrigados a
reduzirem sua velocidade, restringiam-se, no máximo, a seguí-lo, guiados pelas
lanternas vermelhas de seu carro.
Vez por outra, ele,
malandramente, especialmente na tomada da curva do Sol, desligava os faróis e
deixava seus seguidores, perdidos, na curva do Sargento, no Laranja, na primeira
perna do “S” e no pinheirinho, procurando-o como loucos. Voltava a ligar os
faróis na entrada do Bico de Pato e, quando conseguia executar este truque mais
de uma vez, disparava lá na frente.
Esta é apenas uma das
várias histórias do grande Bird Clemente. Vou continuar contando mais, para que
não se perca esta memória viva de nosso automobilismo.
A sorte sorriu para mim
e, graças ao amor comum ao autódromo, pude conhecê-lo pessoalmente e conversar
por longas horas, aprendendo com seu conhecimento sobre automobilismo, carros e
o nosso magnífico circuito.
AH! E ele nunca foi
daltônico. É apenas o piloto que mais voltas deu no autódromo, especialmente à
noite, testando carros para as fábricas brasileiras. Só isso!
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GOL EM INTERLAGOS
O autódromo de Interlagos, em São Paulo, com
seu antigo traçado, era o nosso Maracanã do automobilismo, sempre recebendo um |